A sensação de que Donald Trump reconfiguraria a alma da América à sua imagem e semelhança perdeu o fôlego. O que parecia ser uma "mudança de vibração" decisiva, capaz de consolidar uma nova hegemonia cultural, revelou-se um interlúdio frenético, mas incapaz de fincar raízes profundas no tecido social. Enquanto o aparato governamental opera com ordens executivas e manobras institucionais agressivas, o efeito cultural esperado — a aceitação de um novo paradigma de valores — não se concretizou como o padrão dominante. A política americana parece agora um campo de batalha de identidades em disputa, onde a esperança de um consenso nacional cedeu lugar a uma exaustão democrática palpável.

O espelho da identidade branca

A ascensão da política de identidade branca é, talvez, a consequência mais duradoura desta era, mas não da forma como os entusiastas do trumpismo imaginavam. O que observamos é uma espécie de espelhamento: ao verem grupos minoritários reivindicarem seu lugar ao sol através da política de identidade, muitos americanos brancos decidiram que o jogo agora é outro. Eles abandonaram a pretensão de neutralidade para se declararem, também, como um grupo racializado em busca de reconhecimento e preservação. Essa "multiculturalidade assimétrica", como teorizada por Eric Kaufmann, tornou-se, na prática, uma competição de soma zero por status, onde o ressentimento é o combustível principal.

Essa mudança, porém, é complexa. Figuras como Nick Fuentes e outros porta-vozes da extrema-direita demonstram que a "branquitude" moderna é um conceito fluido, por vezes contraditório, que pouco se assemelha às caricaturas de supremacia do século passado. A tentativa de JD Vance de introduzir o termo "americanos de herança" no léxico político sinaliza o desejo de conferir uma dignidade histórica a essa nova identidade. Contudo, essa narrativa ignora que a maioria dos eleitores de Trump não está movida por ideologias nacionalistas profundas, mas por uma resposta pragmática a crises reais, como a fronteira, que foram negligenciadas pela elite política tradicional por tempo demais.

A armadilha da vingança

O maior perigo que os Estados Unidos enfrentam não é apenas a fragmentação ideológica, mas a sedução pela vingança. Amanda Ripley observa com precisão que a política contemporânea, tanto à direita quanto à esquerda, transformou-se em uma fantasia de retribuição. A lógica do "olho por olho" tornou-se a moeda corrente: se o oponente usa táticas desleais, como o gerrymandering agressivo, a resposta imediata é mimetizar o comportamento para não perder terreno. Esse ciclo de tit-for-tat é viciante e, mais importante, autodestrutivo, pois valida as mesmas práticas que os atores alegam repudiar.

O caso de Graham Plattner, com seu passado marcado por símbolos de ódio, ilustra perfeitamente essa tensão moral. Enquanto setores do Partido Democrata tentam justificar a tolerância com desvios éticos em nome de uma necessidade eleitoral urgente, a credibilidade do discurso público se esfacela. Quando a política é reduzida a um jogo de sobrevivência onde os fins justificam qualquer meio, a possibilidade de uma reconciliação nacional torna-se cada vez mais remota. A desonestidade intelectual de ignorar falhas morais próprias enquanto se condena o adversário apenas aprofunda o abismo entre os cidadãos.

O colapso do centro

Existe ainda um centro político na América? A resposta é ambígua. Por um lado, pesquisas indicam que o americano médio permanece tolerante e sensato em temas cruciais. Por outro, a infraestrutura da nossa cultura — dominada por algoritmos e câmaras de eco — tornou impossível a existência de um "mainstream" compartilhado. Já não temos mais os grandes eventos unificadores de outrora; a fragmentação do consumo cultural reflete a desintegração do discurso público. Sem uma narrativa comum, o centro político torna-se uma entidade abstrata, incapaz de mobilizar as massas contra a polarização extrema.

A ideia de que uma mudança institucional, como a adoção de representação proporcional, resolveria o impasse é vista por muitos como uma ingenuidade. O problema é estrutural e cultural, enraizado em uma desconfiança mútua que transcende o desenho das urnas. Enquanto o sistema for desenhado para premiar o extremismo das bases partidárias, o eleitor moderado continuará sendo um espectador desamparado, assistindo a um pêndulo que oscila entre dois polos que se odeiam, mas que, paradoxalmente, dependem um do outro para sobreviver.

Perspectivas de um futuro incerto

O que nos resta observar é se a exaustão democrática levará a um novo tipo de liderança ou a um aprofundamento da crise. A busca por um político capaz de falar a uma nação dividida, evocando o melhor das nossas aspirações em vez do pior dos nossos medos, parece uma tarefa hercúlea diante da atual configuração das elites. A política americana está em um momento de transição, onde o passado não serve mais como guia e o futuro permanece envolto em uma névoa de retaliações constantes.

Talvez a saída não venha de uma grande reforma, mas de um cansaço coletivo que force a sociedade a buscar novas formas de convivência. Enquanto a vingança for o prato principal do banquete político, a harmonia social será apenas uma miragem distante. A questão que paira sobre a próxima década não é quem vencerá a próxima eleição, mas se ainda sobrará uma cultura comum capaz de sustentar uma democracia funcional quando a poeira finalmente baixar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Persuasion