Uma década se passou desde que o público conheceu a dona de um café temático de porquinhos-da-índia em Londres, e a televisão nunca mais foi a mesma. Fleabag, a série criada e estrelada por Phoebe Waller-Bridge, tornou-se um fenômeno cultural que transcendeu suas duas temporadas. O legado, no entanto, não está apenas nos prêmios ou no humor afiado, mas na forma crua como a obra dissecou o fracasso, o luto e, acima de tudo, os erros.
Adaptada de uma peça solo de Waller-Bridge, a série chegou em 2016 como parte de um movimento que consolidava a “tragicomédia” no vocabulário cultural, ao lado de produções como Louie e Bojack Horseman. Eram narrativas sobre pessoas falhas navegando a vida moderna. A tese de Fleabag, porém, era mais específica e visceral: um mergulho na psique de uma mulher cuja sagacidade e humor eram, na verdade, um sofisticado mecanismo de defesa contra uma dor e uma culpa profundas.
A anatomia da tragicomédia
O que diferenciou Fleabag de seus contemporâneos foi a sua protagonista. A personagem-título era uma anti-heroína que não se encaixava nos moldes masculinos de figuras como Tony Soprano ou Walter White. Seus erros não envolviam violência ou crime organizado, mas transgressões emocionais e relacionais, o que, para uma personagem feminina, frequentemente carrega um peso social distinto. A análise da publicação britânica Little White Lies destaca que a série se tornou um estudo duradouro sobre como cometemos erros, por que os cometemos e como podemos nos perdoar por eles.
A ferramenta narrativa central — a quebra da quarta parede, com a protagonista se dirigindo diretamente à câmera — funcionava em múltiplos níveis. Inicialmente, era um recurso cômico, criando uma cumplicidade com o espectador. Com o tempo, revelou-se um sintoma de seu isolamento. Ela compartilhava piadas e confidências conosco porque não conseguia se conectar com as pessoas em sua própria vida. Era uma performance de controle que, aos poucos, se desfazia para revelar uma mulher em frangalhos.
O peso da falha
A primeira temporada é construída sobre uma série de pequenos e grandes desastres: um relacionamento que implode, embates com a madrasta (interpretada por Olivia Colman) e a irmã controladora. Cada passo em falso parece confirmar a autopercepção da personagem como uma “mulher depravada e moralmente falida”. A narrativa nos leva a acreditar que estamos acompanhando uma sucessão de equívocos honestos, ainda que dolorosos. Apenas no final da temporada a verdade é revelada: Fleabag dormiu com o parceiro de sua melhor amiga, Boo, o que catalisou o suicídio dela.
Este é o erro capital que recontextualiza toda a jornada. A culpa não é um sentimento abstrato; é a consequência de um ato concreto e irreparável. O que poderia ser o ponto de ruptura para a audiência torna-se o clímax da tese da série. Em uma cena crucial, a protagonista, devastada, reencontra o gerente de banco que lhe negara um empréstimo no primeiro episódio. Em vez de julgá-la, ele a ouve e oferece uma segunda chance, afirmando que “pessoas cometem erros”.
É nesse ato de graça inesperada que reside a mensagem mais potente de Fleabag. A série não oferece redenção fácil nem apaga as consequências dos atos. Em vez disso, sugere que, mesmo diante do irreparável, a aceitação da própria falibilidade é o primeiro passo. É um lembrete de que a condição humana é, por definição, hilária e tragicamente imperfeita.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Little White Lies





