As ações do Fleury registraram uma impressionante alta de quase 50% desde o início do ano, superando em três vezes a valorização do Ibovespa e o desempenho de outras empresas do setor de saúde. Esse movimento acentuado levou muitos investidores a questionar os motivos por trás de tal disparada. Uma análise aprofundada do BTG Pactual buscou responder a essa pergunta, chegando a duas conclusões principais: a maior parte da valorização decorre de uma expansão de múltiplos – indicando que o mercado está disposto a pagar mais caro pela empresa ou pelo setor – e não de uma revisão substancial dos lucros. Além disso, a alta parece estar intrinsecamente ligada a um movimento global de reavaliação (re-rating) das empresas de diagnóstico.
Inicialmente, no começo do segundo trimestre, a hipótese predominante era de que a alta do Fleury se tratava de um movimento defensivo. Investidores buscavam segurança em um ambiente macroeconômico deteriorado. O analista Samuel Alves, do BTG, observou que essa explicação parecia plausível, dado que o Fleury apresenta baixa alavancagem, demanda resiliente e um beta relativamente baixo. Contudo, a persistência da performance superior das ações do Fleury mesmo quando o mercado entrou em modo de maior apetite por risco, a partir de meados de agosto, reacendeu o debate sobre os verdadeiros impulsionadores do desempenho. A questão que paira é: o que, de fato, sustenta um desempenho tão forte das ações?
O Cenário Global do Diagnóstico
Alves destaca que o setor de saúde, em geral, possui características regionais marcantes. A regulação e as dinâmicas de consolidação locais tendem a ter um peso maior na definição das condições competitivas do que tendências globais. No entanto, o analista observou que pares globais do Fleury, especialmente aqueles mais próximos em seu modelo de negócios, também experimentaram expansões de múltiplos relevantes e um desempenho sólido de suas ações neste ano. Essa tendência global, segundo o relatório, não apenas reflete um desempenho operacional relativamente robusto desses pares, mas também sinaliza uma narrativa de crescimento estruturalmente mais elevado ganhando força no segmento de diagnóstico. A medicina preventiva, por exemplo, é apontada como um pilar fundamental para o futuro da saúde, com potencial para tornar o sistema mais proativo, antecipar diagnósticos de doenças graves e viabilizar tratamentos mais personalizados. Nesse contexto, não seria coincidência que empresas focadas em diagnóstico de precisão e oncologia figurem entre as de maior crescimento globalmente.
Fleury no Contexto dos Pares Globais
O BTG Pactual categorizou os pares globais do Fleury em três grupos: laboratórios tradicionais de grande escala, empresas de diagnóstico de precisão e oncologia (nichos de alto crescimento), e laboratórios asiáticos em mercados com baixa penetração. O banco posiciona o Fleury mais próximo do primeiro grupo, que, embora não tenha apresentado o mesmo ritmo de crescimento dos grupos 2 e 3, também se beneficiou de uma expansão de múltiplo significativa. Nomes como Quest Diagnostics, Labcorp Holdings e Eurofins, que compõem esse grupo de laboratórios tradicionais, negociam atualmente entre 16x e 21x o lucro estimado para os próximos doze meses. Essa mediana é cerca de 35% superior à do Fleury, que negocia a 14x lucro. Historicamente, essa diferença de múltiplo entre o Fleury e seus pares globais se manteve em torno de 35%, e o patamar atual reflete a expansão de múltiplos observada tanto nos pares quanto na própria empresa brasileira.
Implicações para o Mercado Brasileiro
Apesar da dinâmica atual, o BTG Pactual acredita que os fundamentos locais podem voltar a ter maior relevância no futuro. O relatório ressalta que o re-rating do Fleury não o transforma em um ativo de alto crescimento. A CEO Jeane Tsutsui tem entregado um crescimento orgânico saudável, na casa de um dígito alto, o que é considerado consistente com a expansão do mercado privado de saúde no Brasil. O Fleury, por sua vez, dificilmente apresentará um crescimento consistentemente acima do mercado, pois não está realizando investimentos agressivos para expansão de capacidade. O banco manteve sua recomendação 'neutra' para a ação, reiterando sua preferência pela Rede D'Or no setor de saúde. Com múltiplos semelhantes entre as duas companhias, o BTG vê o valuation relativo da Rede D'Or como um ponto de entrada atrativo, dada sua trajetória de crescimento superior, maior pipeline de investimentos e potencial mais forte de ganho de participação de mercado. A percepção é que os fatores globais que sustentam os valuations de diagnóstico podem não ser permanentes, e não há uma razão estrutural clara para o Fleury ser negociado com um prêmio sobre a Rede D'Or.
Perguntas em Aberto e Perspectivas
O BTG Pactual não vislumbra um catalisador de curto prazo que possa levar a uma compressão dos múltiplos da ação do Fleury. Ainda assim, alguns investidores mantêm a crença de que a companhia poderia, eventualmente, participar de operações de fusão e aquisição (M&A) ou se tornar alvo de aquisição. Embora a probabilidade percebida de um negócio desse tipo tenha diminuído consideravelmente, essa opcionalidade pode continuar a oferecer suporte à ação no curto prazo. Com valor de mercado de R$ 12 bilhões na Bolsa, a ação do Fleury acumula alta de 38% nos últimos doze meses e 48% no ano, demonstrando sua força no mercado.
O cenário para o Fleury, embora impulsionado por tendências globais, ainda guarda incertezas sobre a sustentabilidade desses múltiplos e a capacidade da empresa de crescer acima da média do mercado. A evolução das dinâmicas locais e globais de diagnóstico, bem como potenciais movimentos corporativos, serão fatores cruciais a serem observados.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





