A operação do sistema elétrico brasileiro está em transformação. Com a expansão acelerada de fontes renováveis variáveis, como a energia solar e eólica, o país se depara com um desafio inédito: a necessidade de ir além da simples geração de energia e priorizar a flexibilidade. Dados recentes do Plano da Operação Energética (PEN 2026) já indicam amplitudes diárias máximas na geração hidrelétrica que superam registros históricos, refletindo as mudanças no perfil diário de geração e demanda. Essa dinâmica exige um aprimoramento contínuo em regulamentação, tecnologia e práticas operacionais para garantir a estabilidade e eficiência do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Para especialistas como Rodrigo Miguel de Oliveira, diretor da AXIA Energia, o cerne da questão reside em criar mecanismos econômicos que valorizem adequadamente essa flexibilidade. "A flexibilidade que o sistema necessita, na nossa visão, não tem hoje ainda um sinal econômico, refletido no preço de energia, adequado", afirma. A transição para um modelo com maior participação de fontes intermitentes demanda uma redefinição do papel de ativos tradicionais e a exploração de novas soluções.

Novos papéis para a geração hidrelétrica

Por décadas, as usinas hidrelétricas foram a espinha dorsal do sistema elétrico brasileiro, não apenas pela capacidade de armazenar energia em reservatórios para períodos de seca, mas também por sua agilidade em ajustar a produção à demanda. Contudo, a ascensão das fontes eólica e solar tem alterado essa dinâmica. A necessidade de flexibilidade agora se estende para intervalos mais curtos, exigindo uma resposta em escala diária, e não apenas sazonal. "O papel da hidrelétrica como fonte de flexibilidade mudou. Hoje a gente fala em regularização mensal e em flexibilidade de atendimento diário", explica Oliveira.

Essa mudança impacta a relevância de diferentes tipos de empreendimentos hidrelétricos. Usinas como Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, projetadas predominantemente no modelo a fio d’água, ampliaram significativamente a capacidade instalada do SIN, mas possuem menor capacidade de regularização por grandes reservatórios. Em contrapartida, usinas com reservatórios maiores, como Tucuruí, no Pará, tornam-se ainda mais estratégicas. "Tucuruí talvez seja hoje um dos maiores ativos de flexibilidade que o sistema brasileiro possui", atesta Oliveira. Sua capacidade de armazenamento permite preservar água para momentos de pico de demanda, complementando a geração de usinas a fio d’água e garantindo a flexibilidade necessária ao sistema.

A precificação da resposta: um desafio de mercado

À medida que a demanda por flexibilidade cresce, a discussão sobre como incentivar economicamente os recursos que a oferecem ganha força. Embora o setor já conte com serviços ancilares, a entrada de novas tecnologias, como sistemas de armazenamento em baterias, amplia o debate sobre a valoração desses atributos. Em 2026, a ANEEL deu um passo importante ao iniciar consultas públicas para os primeiros leilões de reserva de capacidade focados em baterias, propondo remuneração por disponibilidade de potência via receita fixa.

Oliveira defende que o mercado deve se autorregular através de sinais de preço de energia mais precisos. "O mercado deveria se autorregular via sinal do preço de energia", argumenta. A ausência de sinais econômicos claros desestimula investimentos em soluções de flexibilidade, como baterias. Aprimorar os mecanismos de formação de preços é, portanto, fundamental para que o mercado reconheça e remunere adequadamente esses atributos, promovendo uma concorrência eficiente entre diferentes tecnologias.

O consumidor como agente de equilíbrio

A flexibilidade no sistema elétrico não se restringe aos operadores e geradores; ela pode e deve envolver o consumidor final. Sinais de preço mais alinhados às condições de oferta e demanda ao longo do dia permitiriam que consumidores ajustassem seus padrões de consumo, gerando economia e contribuindo para o equilíbrio da rede. O executivo cita a tarifa branca como um exemplo de mecanismo que busca diferenciar preços por horário, mas aponta que ela não reflete a volatilidade diária da oferta e demanda. "O consumidor hoje não tem sinal de preço. Se tivesse um sinal de preço, poderia mudar hábitos e economizar no custo total de energia elétrica", observa.

O aprimoramento desses sinais econômicos é crucial para orientar consumidores, investidores e operadores. A evolução do sistema elétrico também exige que empresas do setor adaptem seus ativos. Tucuruí, por exemplo, foi ressignificada para atender às demandas atuais, demonstrando a necessidade de flexibilidade e modernização. A expansão dessas adaptações, no entanto, depende de sinais econômicos mais claros e de um ambiente regulatório favorável.

Lições internacionais e o futuro do sistema brasileiro

O Brasil não está sozinho na busca por valorizar a flexibilidade. Mercados como Austrália, Texas e Califórnia já implementaram soluções como liquidação em intervalos mais curtos e contratação de capacidade de rampa. Oliveira sugere que a evolução brasileira pode se beneficiar de uma combinação de medidas: aprimoramento dos modelos de precificação, redução gradual de subsídios e criação de sinais econômicos claros. "Olhar para fora é importante. São evoluções extremamente necessárias, mas que não podem vir sozinhas, elas têm que vir de um plano", ressalta.

A adaptação dessas práticas deve considerar as particularidades do sistema brasileiro, mas com o objetivo de aproximar a operação dos sinais econômicos. A precificação deve refletir dinamicamente a escassez ou sobra de energia, como em mercados internacionais onde os preços respondem em intervalos mais curtos. A evolução do sistema elétrico brasileiro, impulsionada pela expansão de fontes renováveis, exige que a capacidade de resposta se torne tão importante quanto a geração, abrindo caminho para um futuro mais eficiente e seguro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Tech Review Brasil