O salão da Fogo de Chão em São Paulo, outrora palco de um rodízio ininterrupto, hoje exibe um mosaico de hábitos de consumo. Ao lado de clientes fiéis ao formato que consagrou a marca, outros optam por cortes à la carte, hambúrgueres ou o buffet de saladas. Essa adaptação é a espinha dorsal da estratégia atual da rede, que busca harmonizar a tradição gaúcha com as novas demandas do mercado. Paulo Antunes, country manager da Fogo de Chão no Brasil, ressalta que o objetivo não é desfigurar a origem, mas sim "reverenciar o que foi feito e criar novas coisas ao redor dessa experiência". A rede, que ajudou a popularizar o rodízio completo, agora oferece uma dezena de serviços, desde cortes únicos até opções premium como wagyu e carnes dry aged, com cerca de 20% dos clientes buscando essas novas experiências.

Adaptação a um Novo Cenário Gastronômico

A mudança no cardápio responde a um cenário gastronômico em evolução. A cultura de consumo se deslocou, com uma parcela crescente de clientes buscando não apenas qualidade, mas também experiências personalizadas. O avanço do movimento wellness e a popularização de medicamentos como os GLP-1 também influenciam, reduzindo o apetite por modelos de "comer à vontade" e direcionando o foco para a qualidade e a experiência individual da proteína. Antunes acredita que essa flexibilização "incentiva novas pessoas a virem", ampliando o alcance da marca. A estratégia de diversificação, portanto, não é apenas uma resposta a tendências, mas um movimento calculado para garantir a relevância da Fogo de Chão em um mercado cada vez mais segmentado e consciente.

Expansão Acelerada e o Motor Americano

Paralelamente à reinvenção do formato, a Fogo de Chão acelera sua expansão global, com forte foco nos Estados Unidos. Controlada pela Bain Capital, a empresa projeta atingir um faturamento anual de US$ 1 bilhão nos próximos 12 a 24 meses. O plano ambicioso prevê a abertura de 10 a 20 restaurantes próprios por ano nos EUA, visando superar a marca de 100 unidades no país. A prioridade geográfica inclui reforçar a presença em mercados-chave como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília no Brasil, com a intenção de retornar a Belo Horizonte. O ímpeto dessa expansão é impulsionado, em parte, pela agressividade de investidores como a Bain Capital, que injetam capital e estratégia para o crescimento.

Desafios e Otimismo no Mercado Brasileiro

No Brasil, o ritmo de crescimento da Fogo de Chão sofreu uma desaceleração mais recente. Após anos de expansão de dois dígitos em mesmas lojas, a operação local deve registrar um "crescimento negativo" em 2026, segundo Antunes. Ele atribui essa desaceleração a uma combinação de fatores: a expectativa de continuidade da política econômica, que leva empresas a adiar planos; o volume recorde de falências e recuperações judiciais; e a inflação percebida pela classe média, que estima entre 15% e 20% acima dos índices oficiais, resultando em "menos dinheiro para circular". Apesar desses desafios, Antunes mantém o otimismo, considerando o setor de restaurantes um "termômetro da economia" e um setor que "entrega muito".

Uma Empresa Americana de Alma Gaúcha

Fundada em Porto Alegre em 1979, a Fogo de Chão estabeleceu sua primeira unidade nos EUA em Dallas, em 1997. Atualmente, a rede conta com 128 lojas globais, sendo a maioria concentrada nos EUA (quase 100), com 9 no Brasil e 6 no Reino Unido, todas de propriedade da empresa. Outros 11 países operam sob modelo de franquia. Com 12 mil funcionários, a maioria nos EUA, a empresa se autodefine como "uma empresa americana de alma brasileira". A trajetória passou por quatro fundos de investimento, sem alteração no comando executivo, o que, segundo Antunes, permitiu manter o foco em resultados, acelerar a expansão e otimizar o uso de tecnologia, especialmente modelos de IA para análise de dados de gestão. A rede também se destaca por não aderir ao churrasco americano defumado, focando na difusão do método gaúcho nos EUA, onde já popularizou cachaça, guaraná e pão de queijo.

A gestão da Fogo de Chão, após a pandemia de Covid-19, usou o período para reinventar a empresa, desde a arquitetura e design das lojas até as receitas e cortes de carne, mantendo a tradição e inovando. A formação de equipe é prioridade, com profissionais sendo treinados no Brasil e levados para os EUA, formando mão de obra especializada. O ticket médio varia significativamente, de R$ 160-R$ 175 para um rodízio de corte único até cerca de R$ 290 para a experiência completa, com opções de vinhos que podem ultrapassar milhares de reais. A otimização do Custo da Mercadoria Vendida (CMV) é crucial, com processos rigorosos de pesagem e preparo das carnes para reduzir desperdícios, o que impacta positivamente o resultado e a experiência do cliente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea