A terceira jornada do Forbes Economic Summit 2026, realizada em Madri, delineou um mapa de desafios e oportunidades para a economia espanhola, com foco em produtividade, indústria e autonomia estratégica. O evento, que reuniu empresários, economistas e líderes de diversos setores, sublinhou a necessidade de converter as reconhecidas fortalezas do país – como talento, recursos renováveis e infraestrutura – em crescimento econômico tangível e prosperidade.

O ponto de partida das discussões foi a produtividade, um dos grandes motores de qualquer economia competitiva. Juan María Nin, presidente do Círculo de Empresarios, apresentou um diagnóstico cauteloso, indicando que, embora a Espanha tenha crescido desde 2019, a melhoria da produtividade ainda não consolida uma mudança estrutural. A percepção no mundo empresarial é de um "aprovado raspado". Nin destacou que o crescimento da atividade nem sempre se traduziu em benefícios proporcionais para empresas e lares, com seis em cada dez empresas do Círculo sentindo um impacto reduzido. Ele também criticou o absentismo injustificado, visto como um fardo para colegas e um entrave à produtividade geral. Matilde Mas Ivars, economista e diretora de Projetos Internacionais do IVIE, complementou, defendendo que o foco deve ser em permitir que empresas produtivas cresçam, em vez de simplesmente premiar a dimensão. Ambos concordaram na necessidade de maior investimento em intangíveis como conhecimento, organização, formação e inovação, com Nin resumindo a fórmula como "educação, educação e educação".

Tecnologia como Motor de Competitividade

A transformação tecnológica, especialmente a inteligência artificial (IA), foi apontada como um fator crucial para a competitividade. Mercedes Oblanca, CEO da Accenture Espanha e Portugal, ressaltou a necessidade de a Europa ganhar agilidade e acelerar investimentos em inovação para competir com os Estados Unidos e a Ásia. Ela identificou um descompasso entre as qualificações dos profissionais e as demandas das empresas espanholas, defendendo a requalificação como um caminho essencial. A IA, segundo Oblanca, deve ser vista não apenas como uma ferramenta de automação, mas como um meio de transformar processos, democratizar o conhecimento e romper silos internos. Em um cenário de incerteza constante, ela enfatizou a importância de investir em pessoas tanto quanto em tecnologia, e que a liderança exige templança e sabedoria. Meinrad Spenger, CEO da MasOrange, ecoou a necessidade de formação e treinamento para equipes diante da rápida adoção da IA, destacando que as telecomunicações expandiram seu escopo para incluir cibersegurança, cloud e internet das coisas. A filosofia de "co-criar o futuro" foi apresentada como essencial para navegar a complexidade atual.

A Indústria como Pilar da Transformação

César Moñux, presidente da Michelin Espanha e Portugal, colocou o produto no centro da competitividade industrial. Ele defendeu a indústria como geradora de empregos qualificados e coesão social, descrevendo fábricas como "universidades de vida" e a indústria como criadora de uma classe média essencial. A transformação do setor automotivo, com veículos se tornando "grandes computadores sobre quatro rodas", foi destacada. Moñux também reiterou a preocupação com o aumento do absentismo, que ele considera um problema de saúde, social e econômico, com incidência duplicada nos últimos oito anos.

Na mesa redonda sobre indústria, energia e mobilidade, Roberto G. Merino (Redeia), Loreto Ordóñez (ENGIE) e Alberto de Aza (BYD Iberia) concordaram que a Espanha possui ativos valiosos, mas a execução é o gargalo. Merino mencionou investimentos significativos na rede de transporte, mas apontou que os prazos administrativos retardam a transição energética. Ordóñez defendeu que a vantagem renovável da Espanha se traduza em vantagem industrial, atraindo investimentos com previsibilidade e preços competitivos. De Aza, falando do setor automotivo, alertou para a transformação histórica impulsionada pela eletrificação e a competição asiática, defendendo que a Espanha capture toda a cadeia de valor, não apenas a montagem.

Autonomia Estratégica e Desafios Econômicos

Juanjo Cano, CEO da KPMG Espanha, introduziu o conceito de "autonomia estratégica" como um eixo central, conectando energia, indústria, defesa, soberania digital e simplificação normativa. Ele destacou a necessidade de a Europa reduzir dependências industriais e tecnológicas, e a Espanha tem a oportunidade de impulsionar centros de dados e indústria digital. A defesa foi apontada como uma prioridade, com a urgência de desenvolver capacidades próprias em um mundo de conflitos híbridos. Íñigo Martos, CEO do Deutsche Bank Espanha, reforçou a importância da produtividade, ligando-a à necessidade de agir em regulação, fiscalidade, mercado laboral e financiamento. Ele lamentou que a Europa exporte parte de seu ahorro e defendeu a unificação europeia para reduzir a complexidade administrativa e reter capital.

A economia espanhola, embora apresente melhor desempenho que a europeia em alguns aspectos, enfrenta desafios inflacionários e um grave déficit habitacional, com uma estimativa de quase um milhão de moradias em falta até 2028, segundo Soledad Núñez, subgovernadora do Banco de Espanha. No entanto, ela ressaltou que a situação atual difere da crise de 2008, com padrões hipotecários mais prudentes e maior solidez bancária. Alejandra Kindelán, presidente da Associação Espanhola de Banca (AEB), e Ángela de Miguel, presidente da CEPYME, discutiram a necessidade de mobilizar capital, alertando que 300 bilhões de euros de poupança europeia saem anualmente para os EUA. Elas defenderam um ecossistema financeiro robusto que combine bancos, capital de risco e mercados. De Miguel enfatizou os obstáculos burocráticos e a falta de capacidade elétrica como entraves ao crescimento das PMEs espanholas, resumindo que "o que precisamos é um ecossistema que permita às empresas crescer". A jornada concluiu reafirmando que a capacidade de converter as fortalezas do país em atividade econômica depende do capital, da execução e das condições favoráveis ao investimento.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España