A Framework Ventures, gestora baseada em San Francisco que se consolidou como uma das vozes mais influentes no ecossistema de finanças descentralizadas (DeFi), anunciou na sexta-feira a captação de US$ 400 milhões para seu quarto fundo. O movimento marca uma inflexão estratégica para a firma, que agora expande seu mandato para além dos ativos digitais, buscando oportunidades em áreas como inteligência artificial, robótica e infraestrutura energética.

Segundo reportagem da Fortune, o novo aporte atraiu investidores institucionais diversificados, incluindo fundos de fundos, dotações universitárias e fundos soberanos. Embora a firma mantivesse US$ 1,28 bilhão sob gestão em dezembro de 2025, o novo capital sinaliza uma adaptação necessária diante da volatilidade do mercado cripto, que tem enfrentado desafios desde o início de 2026.

A transição para tecnologias de fronteira

A Framework Ventures construiu sua reputação apostando cedo em protocolos como Aave e Chainlink, conquistando a confiança de uma base de usuários nativos do setor cripto. No entanto, o cenário mudou drasticamente. A empolgação inicial com o setor de ativos digitais arrefeceu, enquanto o capital de risco global se concentrou quase inteiramente na corrida pela inteligência artificial. Para os cofundadores Vance Spencer e Michael Anderson, a mudança não é apenas oportunismo, mas uma resposta à evolução dos interesses de sua própria rede de empreendedores.

A leitura aqui é que a gestora está tentando capturar o valor que transborda da infraestrutura digital para aplicações físicas e de software avançado. Ao rotular esse novo foco como "tecnologia de fronteira", a Framework evita o rótulo de investidor puramente cripto, alinhando-se a uma narrativa mais ampla de inovação tecnológica que atrai LPs mais conservadores e diversificados.

O efeito manada no venture capital

A Framework não está sozinha nesta jornada. A Paradigm, um dos nomes mais fortes do setor, estaria levantando US$ 1,5 bilhão com um mandato similarmente expandido, enquanto a Haun Ventures também diversificou seu portfólio para incluir serviços financeiros e ativos alternativos. Esse movimento coletivo sugere uma correção de curso estrutural no ecossistema de venture capital, que durante anos tratou cripto e tecnologia convencional como silos estanques.

O mecanismo por trás dessa transição é a busca por retornos em um ambiente de taxas de juros e apetite ao risco que mudaram significativamente. Com o mercado de criptoativos oscilando perto de mínimas não vistas desde 2024, a promessa de exits via IPOs de empresas de IA como Anthropic e OpenAI tornou-se o novo norte para os gestores, forçando firmas antes especializadas a se reinventarem para manter a relevância perante seus investidores.

Implicações para o ecossistema

Para o ecossistema brasileiro, esse fenômeno reflete uma tendência global de convergência. Quando gestoras de peso como a Framework passam a investir em startups de robótica ou infraestrutura, o mercado local de venture capital tende a seguir o fluxo, buscando teses que conectem a eficiência da IA com problemas reais da economia tradicional. A tensão, contudo, reside na capacidade dessas firmas de manterem a expertise técnica que as tornou famosas enquanto gerenciam portfólios cada vez mais heterogêneos.

Concorrentes e reguladores observarão de perto como essa alocação de US$ 400 milhões será distribuída. O fato de metade do fundo já ter sido alocado, segundo Anderson, indica uma urgência em se posicionar rapidamente no setor de IA, o que pode pressionar os valuations de startups em estágio inicial e alterar a dinâmica de competição por talentos e tecnologia de ponta.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é se essa diversificação será suficiente para garantir o retorno esperado pelos LPs, especialmente se o setor de IA sofrer uma correção de expectativas antes que essas empresas alcancem o mercado público. A transição da Framework de um nicho altamente especializado para um horizonte de investimentos mais amplo é um teste de flexibilidade para gestoras que nasceram na era da Web3.

Nos próximos meses, o mercado deve observar como a firma equilibrará suas apostas em startups como a Mecka AI com a gestão de seus ativos digitais legados. A capacidade de navegar entre esses dois mundos definirá não apenas o sucesso deste quarto fundo, mas a viabilidade de longo prazo do modelo de negócio da Framework como uma gestora generalista de tecnologia.

A estratégia de investir em "tecnologia de fronteira" sugere que, no Vale do Silício, a sobrevivência no venture capital agora exige uma capacidade constante de se reinventar, mesmo para aqueles que, até pouco tempo atrás, definiam-se exclusivamente pela inovação descentralizada.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune