Uma expedição científica francesa, impulsionada pelo projeto NODSSUM, retornou de uma área remota do Atlântico com descobertas preocupantes sobre o legado da Guerra Fria. Pesquisadores do Centro Nacional para a Pesquisa Científica da França (CNRS) localizaram milhares de barris contendo resíduos radioativos depositados a profundidades extremas, entre 3.000 e 5.000 metros. Entre 1949 e 1982, países europeus descartaram mais de 200.000 barris de resíduos de baixa atividade no oceano, uma prática aceita na época para a gestão nuclear.
O Legado Submerso da Guerra Fria
A falta de conhecimento sobre a localização e o estado desses depósitos levou à criação do projeto NODSSUM, que combina diversas disciplinas científicas para mapear e estudar a interação dos materiais radioativos com o ecossistema abissal. A primeira grande campanha, em junho de 2025, utilizou o veículo submarino autônomo UlyX para identificar e fotografar os barris. Uma segunda expedição, em maio de 2026, com o navio Pourquoi Pas? e o submersível tripulado Nautile, aprofundou a investigação, alcançando mais de 4.700 metros.
Corrosão e Liberação de Radiação
Durante as 20 imersões do Nautile, os cientistas observaram que algumas estruturas apresentavam corrosão avançada e acúmulo de material ao redor dos recipientes. Essa constatação é um sinal claro de que parte do conteúdo original já havia escapado do confinamento. As medições realizadas confirmaram a presença de radionucleídeos no ambiente marinho, com a detecção de cobalto-60 e nióbio-94, especificamente associados aos vazamentos. Concentrações elevadas de césio-137 e amerício-241 também foram encontradas, superando os níveis esperados de fontes como testes nucleares atmosféricos.
Vida Marinha em Contato com Resíduos
Uma descoberta surpreendente foi a observação de vida marinha prosperando em torno dos barris. Anêmonas, esponjas, pepinos-do-mar, peixes e crustáceos foram vistos utilizando os recipientes como estruturas artificiais. Essa interação levanta uma questão científica crucial: determinar se os radionucleídeos liberados estão sendo incorporados pelos organismos que vivem em contato direto com os depósitos. Amostras de sedimento, água e fauna foram coletadas para análise, com o objetivo de avaliar uma possível bioacumulação.
Implicações Ambientais e Perguntas Abertas
Embora os níveis registrados não tenham apresentado problemas imediatos de proteção radiológica durante a manipulação das amostras, e os equipamentos não tenham sido contaminados, a análise do impacto real desses resíduos no ecossistema abissal ainda está em andamento. A pesquisa busca entender a extensão da contaminação e suas consequências a longo prazo para a vida marinha e, potencialmente, para a cadeia alimentar. A comunidade científica aguarda os resultados completos das análises para determinar a real extensão do problema ambiental. A investigação francesa destaca a necessidade de monitoramento contínuo de locais de descarte de resíduos perigosos para mitigar riscos futuros.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · El Confidencial — Tech





