O cenário de segurança digital no Brasil atingiu um novo patamar de complexidade no início de 2026. Segundo levantamento da Serasa Experian divulgado nesta quinta-feira (18), o país registrou a emergência de um novo risco digital a cada 13 minutos durante o primeiro trimestre. O dado reflete uma alta de 8,3% na comparação anual, sinalizando que a criminalidade cibernética deixou de ser uma atividade isolada para se tornar um ecossistema estruturado e altamente eficiente.
A análise, denominada "Mapa da Fraude", indica que a profissionalização do setor é impulsionada pela adoção massiva de tecnologias de inteligência artificial generativa. Longe de agirem como lobos solitários, os fraudadores agora operam em redes colaborativas, compartilhando vulnerabilidades, ferramentas de ataque e estratégias de monetização em tempo real, transformando o crime em um modelo de negócios escalável.
A nova arquitetura do crime organizado
A mudança fundamental observada pela Serasa reside na organização dos criminosos. O monitoramento de comunidades digitais revelou um crescimento de 139% no número de grupos dedicados ao intercâmbio de técnicas de fraude em relação a 2025. Esse comportamento colaborativo permite que brechas de segurança sejam rapidamente empacotadas e distribuídas, criando uma cadeia de suprimentos para golpes que antes exigiam um nível de especialização técnica muito mais elevado.
O uso de IA generativa potencializou esse arsenal. Com a capacidade de automatizar a criação de deepfakes, mensagens personalizadas e páginas de phishing convincentes, os criminosos conseguem reduzir drasticamente o custo de aquisição de vítimas. A escala é impressionante: foram identificadas mais de 19,7 milhões de mensagens relacionadas a golpes circulando no período, uma média de 152 comunicações maliciosas por minuto, demonstrando que a escala industrial é o novo padrão operacional do setor.
O setor financeiro como epicentro
O setor financeiro permanece como o principal alvo dos ataques, concentrando cerca de 60% das tentativas de fraude em processos de onboarding. A urgência dos criminosos em acessar instituições bancárias, fintechs e emissores de cartão justifica-se pela possibilidade de monetização imediata. O volume de tentativas de validação de identidade fraudulenta atingiu a marca de 1,5 milhão no trimestre, o que equivale a uma investida a cada cinco segundos.
Embora os sistemas de prevenção tenham evitado perdas estimadas em R$ 1,98 bilhão, a pressão sobre as instituições é constante. A lógica é de curto prazo: o fraudador busca o caminho de menor resistência para converter dados roubados em ativos líquidos. Esse fenômeno força as empresas a investirem pesadamente em camadas de autenticação que, embora necessárias, alteram a experiência do usuário final, criando um dilema permanente entre atrito de segurança e conveniência digital.
A expansão para novos horizontes
Além das finanças, novos setores entraram no radar dos criminosos. O mercado de apostas esportivas, em rápida expansão, registrou um aumento de 15 vezes nas tentativas de fraude, um reflexo direto da implementação ainda em curso da regulamentação. O setor de bens de consumo, especificamente itens de alto valor e liquidez como eletrônicos e produtos de saúde — como as canetas de emagrecimento —, também se tornou um polo de atração para fraudadores interessados em revenda no mercado paralelo.
Essa diversificação de alvos sugere que o crime digital é altamente reativo às tendências de consumo. Onde há volume de transações e valor agregado, há o desenvolvimento de uma infraestrutura de ataque correspondente. Para os reguladores e empresas, o desafio agora é antecipar as rotas de ataque antes que elas se consolidem, uma vez que a velocidade de adaptação das redes criminosas supera, em muitos casos, a capacidade de resposta das políticas de segurança tradicionais.
Desafios para a confiança digital
O fato de 51% da população economicamente ativa já ter sido vítima de algum golpe traz implicações profundas para a economia digital. A erosão da confiança do consumidor pode frear o crescimento de novos serviços e encarecer o custo de operação para empresas que precisam implementar medidas de segurança cada vez mais rigorosas. A questão central que permanece é se a tecnologia de defesa conseguirá acompanhar a sofisticação das redes criminosas sem inviabilizar a fluidez das transações.
O futuro próximo exigirá uma colaboração mais estreita entre o setor privado e órgãos reguladores para desmantelar não apenas transações isoladas, mas as redes de compartilhamento de conhecimento que sustentam esses grupos. A vigilância sobre sites falsos, que surgem a uma taxa de quatro por hora, continuará sendo apenas uma das frentes de uma batalha que, ao que tudo indica, está longe de um ponto de inflexão.
O cenário de 2026 sugere que a segurança digital deixou de ser um custo operacional para se tornar um pilar estratégico de sobrevivência das empresas brasileiras.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney




