O cientista político Francis Fukuyama, autor de obras como O Fim da História e o Último Homem, critica a leitura que o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, fez do conceito grego de 'thymos' — e aponta que ela é superficial, incompleta e potencialmente perigosa para a política externa americana.

Rubio proferiu um discurso na Pnyx, em Atenas, onde evocou o 'thymos' (ou 'thumos') para descrever o valor central da civilização ocidental. A ideia, que remete à busca por excelência, ambição e competição, foi central na Grécia Antiga, segundo Rubio, e é vista por ele como o motor da energia artística, filosófica e política que moldou o Ocidente.

A Essência do 'Thymos' e a Visão de Rubio

Rubio argumentou que a busca pela excelência, o desejo de ser o melhor e a disposição para o conflito e a distinção eram fundamentais para o florescimento da civilização grega. Ele contrastou essa mentalidade com o que percebe como um ideal moderno de segurança, ausente de risco e de glória. Para ele, o 'thymos' — a paixão, a força, a coragem e o orgulho — é o que impede as nações de perderem a vontade de lutar e de sobreviver.

Essa visão, embora capture um aspecto real da busca por reconhecimento, falha em abordar a dualidade inerente ao conceito.

A Complexidade e o Duplo Gume do 'Thymos'

Fukuyama, que dedicou extensas análises ao 'thymos', argumenta que ele é a força motriz não apenas da civilização ocidental, mas da política em sua totalidade. A luta inicial pela dominância e reconhecimento, que arrisca a própria vida, leva à formação de sociedades onde mestres e escravos são igualmente insatisfeitos. A superação desse impasse, segundo Hegel e Kojève, reside na emergência de um reconhecimento mútuo e igualitário — princípio que fundamenta as democracias liberais e seus direitos básicos.

Fukuyama cunhou os termos isothymia (desejo por reconhecimento igual) e megalothymia (desejo por superioridade). A isothymia é a base das democracias modernas, impulsionando a busca por dignidade e respeito. Já a megalothymia, embora possa ser fonte de progresso e excelência — como na visão de Rubio —, também carrega o potencial para tirania e crimes atrozes, como demonstrado por figuras históricas como Hitler e Stalin, em contraste com líderes como Washington e Lincoln.

Implicações para a Política Externa Americana

A aplicação do conceito de 'thymos' por Rubio em seu discurso levanta questões sérias sobre a política externa americana. Fukuyama sugere que Rubio, em sua tentativa de agradar à liderança atual, distorce a realidade ao falar de valores ocidentais compartilhados, enquanto ignora admirações por líderes autoritários e cortes em financiamento científico.

A celebração do 'thymos' sem considerar seus fins pode ser perigosa — como foi a desastrosa Expedição Siciliana para Atenas. A política externa americana, segundo Fukuyama, deveria ser mais ancorada no princípio da igualdade humana, consagrado na Declaração de Independência, do que na exaltação de indivíduos movidos por megalothymia.

Perguntas em Aberto e o Futuro do Reconhecimento

A análise de Fukuyama deixa em aberto como as democracias podem, de fato, distinguir as formas benéficas da megalothymia das destrutivas, e como canalizar essa paixão para o bem comum. A questão de como conciliar a necessidade de indivíduos ambiciosos e inovadores com a proteção dos direitos iguais para todos permanece um desafio central.

A complexidade do 'thymos' exige um entendimento mais profundo do que uma simples exaltação da competição e da busca por superioridade — especialmente em um contexto geopolítico volátil. A forma como nações e líderes lidam com essa busca por reconhecimento definirá, em grande medida, o futuro da ordem internacional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Persuasion