A trajetória da G10 Transportes é um estudo de caso sobre resiliência, visão estratégica e a capacidade de adaptação no dinâmico setor de logística. O que começou em 1986, com três caminhões pequenos entregues a dois jovens irmãos por seu pai, evoluiu para se tornar a maior transportadora rodoviária de grãos do mundo. Atualmente, a empresa opera uma frota com mais de 2.200 caminhões, percorre cerca de 120 milhões de quilômetros anualmente e ostenta um faturamento superior a R$ 4 bilhões. Essa jornada, no entanto, não foi uma linha reta, mas sim um caminho repleto de desafios, decisões cruciais e um aprendizado contínuo sobre quando expandir e, mais importante, quando parar.

O Início e a Diversificação

A história da G10, inicialmente batizada de Transpanorama, remonta a 1986, quando Claudio Adamuccio, então com 19 anos, e seu irmão Valdecir, de 16, aceitaram o desafio de gerenciar os três caminhões do pai, com o objetivo de sustentar a família enquanto ele se dedicava à igreja. Operando informalmente no Mato Grosso do Sul, os irmãos logo perceberam que o transporte rodoviário era apenas um componente de um negócio maior. Naquele período, a empresa mantinha atividades diversificadas, incluindo serraria, produção de carvão para a indústria siderúrgica e exportação de madeira para a Itália. Os caminhões, na época, eram mais um meio do que um fim, utilizados para escoar a produção dessas outras áreas. A frota evoluiu dos pequenos veículos para carretas, e as cargas começaram a migrar para produtos agrícolas como milho, soja e algodão, antecipando o foco que definiria o futuro da empresa.

A Decisão de Focar no Transporte

A virada estratégica ocorreu em 1997, após a venda do banco Bamerindus, onde a Transpanorama mantinha suas contas, para o HSBC. O novo banco impôs critérios mais rigorosos e decidiu não manter clientes com atividades ligadas a carvão ou madeira. Em vez de buscar outro banco, Adamuccio tomou uma decisão radical: concentrar todos os esforços e recursos no transporte rodoviário. Essa escolha foi motivada pela percepção de que nenhuma empresa pode dominar todas as áreas e que a especialização, alinhada a um propósito claro, seria o caminho para o sucesso e para deixar um legado. A decisão de abandonar as atividades secundárias permitiu à empresa focar em sua vocação de "transportar as riquezas do país, conectar o produtor ao porto, às indústrias", contribuindo assim para o desenvolvimento nacional. Essa redefinição de foco foi fundamental para a construção da G10 como a conhecemos hoje.

A União de Concorrentes: Nasce a G10

Com a decisão de se especializar no transporte de grãos, surgiu um novo desafio: a escala. Em 1998 e 1999, a Transpanorama, com apenas 27 caminhões, enfrentava dificuldades em defender seus interesses em Brasília, especialmente em discussões sobre regulamentação de implementos rodoviários. Adamuccio percebeu que a força de uma empresa individual era limitada. A solução encontrada foi o "imaginável": unir-se a concorrentes diretos. Em 1999, dez transportadoras de Maringá, que disputavam os mesmos mercados, aceitaram a proposta de formar uma associação para compras conjuntas e para oferecer ao mercado uma operação mais estruturada e com maior capacidade. Assim nasceu a Associação Grupo dos Dez, que mais tarde se consolidaria como G10 Transportes. O grupo iniciou com pouco mais de 120 caminhões, e ao longo dos anos, apesar de divergências que reduziram o número de integrantes para cinco empresas desde 2007, a união se provou bem-sucedida, formando a maior transportadora rodoviária de grãos do mundo.

Resiliência em Crises e a Gestão de Custos

A história da G10 também é marcada pela sua capacidade de navegar em períodos de instabilidade. A greve dos caminhoneiros em 2018 evidenciou a dependência do Brasil do modal rodoviário, mostrando como um "elefante amarrado por um barbante" poderia paralisar o país. Embora a G10 não tenha se envolvido diretamente no movimento, a paralisação trouxe à tona a fragilidade da cadeia logística. Pouco tempo depois, a pandemia de Covid-19 impôs desafios operacionais sem precedentes, com o fechamento de postos e restaurantes nas estradas e a necessidade de proteger motoristas e mecânicos. A empresa implementou medidas rigorosas de segurança e até ofereceu alimentação gratuita aos motoristas. Mais recentemente, o principal desafio da G10 tem sido a gestão de custos em um cenário de juros elevados. Com margens apertadas, a empresa optou por interromper um ciclo de expansão da frota em setembro de 2024, priorizando a preservação de caixa e a cautela com o endividamento, uma estratégia que Adamuccio acredita ser crucial para a sobrevivência no setor.

O percurso da G10, de três caminhões a uma gigante de R$ 4 bilhões, é um testemunho da importância da visão estratégica, da colaboração e da capacidade de se reinventar diante das adversidades. A empresa demonstra que, no complexo mundo do agronegócio, a logística é um pilar tão fundamental quanto a própria produção, e que a gestão de riscos e de custos é essencial para manter a liderança em um mercado globalizado e volátil.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney