Líderes das sete maiores economias industrializadas do mundo, reunidos em Évian-les-Bains, na França, formalizaram nesta semana um compromisso ambicioso para reduzir a dependência estratégica em relação à China. O acordo estabelece que nenhum país deve responder por mais de 60% das importações de terras raras e ímãs permanentes do bloco até 2030, com o objetivo de reduzir essa exposição para 50% no menor prazo possível.
A decisão reflete uma mudança na política industrial das potências ocidentais, que agora priorizam a segurança do fornecimento sobre a eficiência de custos. Segundo informações divulgadas durante a cúpula, o G7 planeja definir metas específicas para outros minerais críticos até o final do ano, sinalizando uma coordenação sem precedentes para contornar o domínio chinês no refino e processamento de insumos essenciais para a transição energética e militar.
O peso do domínio chinês
A hegemonia chinesa no setor de minerais críticos não é um fenômeno recente, mas consolidou-se ao longo de décadas através de uma estratégia deliberada de investimento estatal em toda a cadeia produtiva. Relatórios da Agência Internacional de Energia (IEA) indicam que a China detém cerca de 70% da capacidade global de refino de minerais críticos, alcançando patamares ainda mais expressivos em nichos específicos, como 99% do gálio primário e 85% do cobalto processado.
Historicamente, Pequim tem utilizado essa posição dominante como instrumento de barganha geopolítica. O Japão, por exemplo, enfrenta essa realidade desde 2010, quando sofreu um embargo de exportação durante uma disputa territorial. Mais recentemente, novas restrições à exportação impostas pela China em 2025 ameaçaram paralisar cadeias de produção globais, servindo como o catalisador definitivo para que os países do G7 buscassem alternativas de fornecimento.
Desafios operacionais e financeiros
A implementação das metas de 2030 enfrenta obstáculos estruturais significativos. A mineração e, principalmente, o refino de terras raras são atividades intensivas em capital, ambientalmente complexas e que demandam anos para alcançar viabilidade operacional. Projetos alternativos ao redor do mundo frequentemente esbarram em barreiras regulatórias, resistência de comunidades locais e falta de financiamento de longo prazo.
Para contornar esses entraves, o bloco discute a criação de cotas setoriais, com foco especial na indústria de defesa, onde a vulnerabilidade a interrupções de fornecimento é considerada inaceitável. A estratégia também envolve a criação de uma plataforma coordenada para fomentar a reciclagem e novos projetos de mineração, tentando acelerar o que o mercado chama de "desrisco" (de-risking) das cadeias globais de suprimento.
Tensões na cadeia de suprimentos
A busca por diversificação coloca as empresas globais em uma posição de difícil equilíbrio. Fabricantes que dependem de componentes processados na China precisarão redesenhar suas cadeias de suprimentos sob pressão de governos que agora tratam a autonomia mineral como uma questão de segurança nacional. Esse movimento pode elevar os custos de produção no curto e médio prazos, repassando o preço da segurança geopolítica ao consumidor final.
Para o Brasil, que possui reservas relevantes de minerais críticos, o cenário abre janelas de oportunidade para atrair investimentos estrangeiros interessados em diversificar suas fontes. Contudo, a efetividade dessa transição dependerá da capacidade do país em oferecer infraestrutura, segurança jurídica e padrões ambientais que atendam às exigências rigorosas dos mercados desenvolvidos.
Perspectivas futuras
O sucesso da meta de 2030 permanece incerto. A transição exige uma coordenação técnica e financeira que o G7 ainda precisa detalhar. A dúvida central é se o setor privado terá incentivos suficientes para absorver os custos de uma cadeia produtiva menos eficiente, porém mais resiliente.
Os próximos anos dirão se a diplomacia mineral conseguirá superar as barreiras físicas e econômicas que sustentam o status quo. Acompanhar os novos projetos de mineração e as políticas de subsídios que surgirão em resposta a esse compromisso será essencial para entender o real impacto dessa guinada geopolítica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney




