Na Galícia, um indicador sutil, mas revelador, da distribuição de riqueza tem mudado o panorama: o número de proprietários com múltiplos bens urbanos superou pela primeira vez aqueles que detêm apenas um imóvel. Os dados mais recentes do Catastro espanhol, referentes a 2025, indicam que os titulares de dois ou mais imóveis somaram 977.906 indivíduos, enquanto os donos de uma única propriedade totalizaram 968.936. Essa inversão, que já vinha se desenhando desde 2008, quando a proporção era significativamente diferente, sugere uma tendência de concentração de patrimônio imobiliário em poucas mãos.

O fenômeno não se restringe à Galícia, mas a região serve como um microcosmo para entender dinâmicas mais amplas em toda a Espanha. Estudos indicam que o aumento do parque imobiliário nas últimas duas décadas não resultou em uma democratização do acesso à propriedade, mas sim em um aprofundamento da dualidade entre quem acumula bens e quem não possui nada. Essa concentração é particularmente notável entre os chamados "grandes tenedores", proprietários que acumulam mais de seis ou até dez imóveis, cujo perfil tem se fortalecido significativamente.

Aumento da multipropriedade

Desde 2008, a paisagem da propriedade imobiliária na Galícia tem passado por uma transformação notável. Naquele ano, havia 557.032 multipropietários na região, um número que cresceu para 853.467 em 2018 e alcançou 977.906 em 2025, segundo os dados mais recentes. Paralelamente, o número total de bens urbanos registrados pela Dirección General del Catastro (DGC) na comunidade autônoma aumentou de 1,6 milhão em 2008 para 1,9 milhão em 2025. Esse crescimento agregado, no entanto, não se traduziu em uma distribuição mais equitativa. Ao contrário, a análise dos dados revela que o peso dos proprietários de um único imóvel diminuiu, enquanto o número de donos de múltiplos bens aumentou de forma expressiva, alterando a dinâmica predominante do mercado.

O que significa "bens urbanos"

É fundamental compreender o escopo da definição de "bens urbanos" utilizada pelo Catastro para interpretar corretamente esses dados. Essa categoria abrange uma vasta gama de propriedades localizadas em áreas povoadas, incluindo casas, apartamentos, garagens, escritórios, espaços comerciais, armazéns industriais, edifícios multifuncionais e até mesmo terrenos sem edificação. Essa amplitude de definição é crucial, pois estudos como o "El problema de la concentración inmobiliaria en España", publicado pelo Ministério de Derechos Sociales em colaboração com o CSIC e o IFS, alertam que o crescimento do parque imobiliário tem beneficiado desproporcionalmente aqueles que já possuíam patrimônio. A disparidade entre a posse de um único imóvel e a multipropriedade, portanto, reflete não apenas a posse de residências, mas também de ativos geradores de renda e valor.

Implicações para a distribuição de riqueza

A tendência observada na Galícia, e em outras partes da Espanha, levanta questões importantes sobre a distribuição de riqueza e o acesso à moradia. O fato de a multipropriedade se tornar a norma, em vez da exceção, sugere que os benefícios do crescimento imobiliário estão sendo capturados por um grupo seleto. Relatórios indicam que, entre 2008 e 2025, o parque imobiliário espanhol cresceu em cerca de dois milhões de unidades, mas esse aumento não foi distribuído de forma equilibrada. Proprietários com um único bem viram seu peso relativo diminuir, enquanto aqueles com duas propriedades aumentaram 8,1%. O crescimento se torna ainda mais pronunciado para proprietários com três ou mais imóveis, que registraram aumentos de 22,5% e superiores. Essa dinâmica aprofunda a desigualdade social e econômica.

Perguntas em aberto sobre o futuro

Embora os dados do Catastro forneçam um retrato claro da concentração imobiliária na Galícia e em Espanha, várias questões permanecem em aberto sobre as implicações a longo prazo. A tendência de multipropriedade e a consolidação de grandes tenedores de imóveis podem exacerbar a crise de acessibilidade à moradia, especialmente para jovens e famílias de baixa renda. Será que as políticas habitacionais atuais são suficientes para mitigar essa concentração? Quais serão os efeitos dessa dinâmica na dinâmica urbana e no mercado de trabalho? Observar a evolução desses indicadores nos próximos anos será fundamental para entender se a Espanha conseguirá reverter ou mitigar a crescente desigualdade patrimonial evidenciada pelos dados imobiliários.

A concentração de riqueza imobiliária na Galícia, e por extensão na Espanha, é um sinal de alerta sobre a distribuição de patrimônio. A ascensão da multipropriedade como norma, em detrimento da posse de um único bem, reflete uma tendência de acumulação em poucas mãos, com profundas implicações sociais e econômicas que merecem atenção contínua. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka