O economista Gary Shilling, conhecido por suas previsões macroeconômicas assertivas, está dobrando a aposta de que a economia americana caminha para uma recessão. Em nota recente, ele estima uma probabilidade de 60% a 70% de uma contração nos próximos 12 meses, com um foco particular nos sinais de alerta emitidos pelo consumidor, o principal motor do PIB dos EUA.
Com um histórico que inclui ter antecipado o estouro da bolha pontocom e a crise imobiliária de 2008, a análise de Shilling carrega um peso considerável. A tese central é que, apesar de alguns indicadores macroeconômicos parecerem resilientes, o comportamento das famílias americanas revela uma história de crescente pressão financeira, com implicações diretas para o crescimento. Segundo reportagem do Business Insider, o alerta está aceso.
Os sinais do esgotamento
A análise de Shilling se apoia em uma série de dados que, juntos, pintam um quadro de fragilidade. As vendas no varejo registraram em julho a pior queda mensal em quase um ano, recuando 0,6%, um sinal de que os lares estão apertando os cintos. Este movimento é acompanhado por uma confiança em baixa: o índice de sentimento do consumidor da Universidade de Michigan caiu em agosto, com 71% dos americanos de renda média afirmando que estão perdendo a batalha contra o custo de vida.
O endividamento é outra frente de preocupação. As dívidas de consumo atingiram um recorde de US$ 5,1 trilhões no primeiro trimestre, e o número de pedidos de falência pessoal cresceu 12% em um ano. Como contrapartida, a poupança despencou. A taxa de poupança pessoal, que superava 9% em 2021, caiu para apenas 3% em julho. Na prática, os consumidores estão esgotando suas reservas e se endividando mais para manter o padrão de vida, uma combinação insustentável a longo prazo.
O varejo como termômetro
O comportamento do setor de varejo oferece uma leitura clara desse cenário. Gigantes como o Walmart, tradicionalmente um porto seguro em tempos de incerteza, mostram sinais de dificuldade. As ações da empresa caíram 20% desde o pico de maio, e o crescimento das vendas comparáveis atingiu o ritmo mais lento em seis anos. O gasto médio por transação também desacelerou, indicando que os consumidores estão comprando menos itens ou optando por produtos mais baratos.
Na outra ponta, redes de desconto como Dollar Tree e Dollar General prosperam. O forte crescimento de vendas nessas lojas não é um sinal de pujança econômica, mas sim de um fenômeno conhecido como "trade-down": a migração forçada de consumidores para opções mais baratas. Shilling também não descarta um cenário de estagflação — crescimento lento com inflação alta —, o que complicaria ainda mais a resposta dos bancos centrais, que teriam menos margem para cortar juros e estimular a economia.
A análise de Shilling oferece uma visão granular que contrasta com os dados agregados de emprego e inflação. A questão que paira sobre a maior economia do mundo não é apenas se haverá uma recessão, mas qual será sua profundidade e duração. A resposta, ao que tudo indica, está sendo escrita no orçamento das famílias americanas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider




