Os principais gases de efeito estufa — dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxido nitroso (N₂O) — continuaram sua trajetória ascendente em 2025, atingindo concentrações sem precedentes na atmosfera global. Segundo o boletim anual do programa de Vigilância da Atmosfera Global da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado às vésperas da COP31, essa escalada representa um alerta para o agravamento do aquecimento global e a intensificação de eventos climáticos extremos.

O relatório aponta que a concentração média global de CO₂ na superfície atingiu um novo recorde de 426,8 partes por milhão (ppm) em 2025. Este valor é 53% superior aos níveis pré-industriais, indicando uma falha contínua em conter as emissões. Embora o aumento entre 2024 e 2025 tenha sido ligeiramente superior à média da última década, a taxa de crescimento não foi tão acentuada quanto no ano anterior. Os níveis de metano e óxido nitroso também registraram máximas históricas, com 1948 partes por bilhão (ppb) e 339,1 ppb, respectivamente, representando aumentos de 167% e 26% em relação aos períodos pré-industriais.

Acelerando o Aquecimento Global

A OMM enfatiza que esses gases aprisionam uma quantidade de calor na atmosfera nunca antes vista, fornecendo a energia que alimenta fenômenos climáticos mais severos. A subsecretária-geral da OMM, Ko Barrett, destacou em comunicado que o acúmulo de gases de efeito estufa representa um risco crescente para economias e sociedades em todo o mundo. Essa constatação corrobora as projeções recentes da ONU, que confirmam a iminência de superação da meta de limitar o aquecimento a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais nos próximos anos. As emissões atuais colocam o planeta em rota para um aquecimento de 2,8°C até o final do século.

Gases Emergentes e Seus Riscos

O relatório da OMM também chama a atenção para o aumento constante de outros dois gases na atmosfera: o hidrogênio molecular e o hexafluoreto de enxofre (SF₆). À medida que mais países buscam descarbonizar seus sistemas energéticos, o hidrogênio molecular, embora não seja um gás de efeito estufa direto, exerce um forte efeito indireto sobre o aquecimento global, sendo cada vez mais utilizado para armazenamento de energia. Sua concentração aumentou 5,3% entre 2010 e 2024. O hexafluoreto de enxofre, por sua vez, é empregado principalmente como supressor de faíscas na distribuição de eletricidade e possui o maior potencial de aquecimento global em um período de 100 anos — aproximadamente 24.000 vezes superior ao do CO₂. Os níveis de SF₆ têm crescido de forma constante nas últimas três décadas, acompanhando a expansão da eletrificação global.

Implicações para o Futuro

O contínuo aumento dos gases de efeito estufa tem implicações diretas para a frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas prolongadas, inundações e tempestades. Esses fenômenos impactam severamente a agricultura, a infraestrutura, a saúde pública e a estabilidade econômica. A meta de 1,5°C, estabelecida no Acordo de Paris, torna-se cada vez mais inatingível, exigindo ações drásticas e imediatas para reduzir as emissões em todas as frentes. A atenção crescente a gases como o SF₆, com seu altíssimo potencial de aquecimento, sinaliza a necessidade de regulamentações mais rigorosas e de busca por alternativas tecnológicas mais limpas.

Perguntas em Aberto

Diante deste cenário, permanecem questões cruciais sobre a capacidade das nações em cumprir seus compromissos climáticos e acelerar a transição energética de forma eficaz. Será possível reverter a tendência de alta nas emissões a tempo de evitar os piores cenários de aquecimento? Quais serão as consequências econômicas e sociais de um aquecimento que ultrapasse significativamente os 2°C? A cooperação internacional e a implementação de políticas ambiciosas serão suficientes para mitigar os riscos associados ao aumento de gases como o hidrogênio molecular e o SF₆? As respostas a estas perguntas moldarão o futuro do planeta.

A persistência do aumento dos gases de efeito estufa reforça a urgência de ações globais coordenadas e de uma profunda transformação nos sistemas energéticos e produtivos. A ciência é clara: o tempo para agir é agora, antes que os pontos de inflexão climática se tornem irreversíveis e as consequências, incalculáveis.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · New Scientist