A exploração de paisagens remotas ganhou um novo capítulo com a descoberta, via Google Earth, de um geoglifo ancestral nas imponentes Cordilheiras dos Andes. A estrutura, caracterizada por um incomum padrão geométrico com círculos de 27 a 35 metros de diâmetro interligados por corredores, foi identificada a uma altitude de 3.000 metros, em uma região de acesso desafiador que demanda dias de caminhada.
As primeiras hipóteses científicas sugerem que o geoglifo possa ter sido um centro cerimonial andino, possivelmente datado do período incaico. Há também uma conexão especulativa com o Tambo de Ranchillos, um sítio arqueológico documentado no Vale de Uspallata, conhecido por seu papel nas rotas de trânsito incaicas em direção ao Chile. No entanto, os líderes do projeto de investigação ressaltam a necessidade de cautela, pois é preciso descartar alterações ao longo do tempo e considerar a multiplicidade de usos que o local pode ter tido ao longo de sua história.
Um Novo Olhar Sobre o Passado
A descoberta, ainda envolta em sigilo quanto à localização exata para evitar vandalismo, mobiliza uma equipe multidisciplinar com participação do Instituto Universitario de Investigación en Arqueología Ibérica da Universidade de Jaén, na Espanha. A investigação irá além da observação superficial, empregando drones para mapear as estruturas com precisão milimétrica. Paralelamente, análises de composição do solo buscarão anomalias químicas indicativas de atividade humana, enquanto a busca por sedimentos e restos botânicos em escala microscópica visa fornecer pistas sobre o contexto ambiental e cultural.
Para Além de Nazca
Embora a menção a geoglifos evoque imediatamente as famosas Linhas de Nazca, no Peru, o contexto andino meridional oferece paralelos mais diretos. Estudos prévios, como os de Luis Briones no Deserto de Atacama, indicam que muitos geoglifos na região serviam não apenas a propósitos divinos, mas também como marcos logísticos e identitários, essenciais para o trânsito de caravanas de lhamas no período pré-hispânico. Essa perspectiva sugere que a interpretação do sítio mendocino sob a ótica das rotas de trânsito andinas pode ser mais rigorosa do que comparações apressadas com o Peru.
O Papel da Tecnologia na Arqueologia
Este achado é um testemunho da evolução da arqueologia, onde plataformas como o Google Earth se tornaram ferramentas poderosas para mapear áreas antes inacessíveis. Embora o uso de imagens de satélite não seja inédito – um exemplo notável foi a identificação de quase 2.000 estruturas arqueológicas na Arábia Saudita em 2011 –, a aplicação em larga escala e com tecnologias complementares como drones e análise de solo reflete um avanço significativo na capacidade de desvendar os segredos do passado.
Questões em Aberto
Ainda que a pesquisa esteja em seus estágios iniciais, a localização exata do geoglifo permanece um mistério, com algumas fontes situando-o em Mendoza e outras na fronteira com a província de San Juan. A natureza precisa de suas estruturas circulares e corredores, bem como sua função específica, ainda aguardam confirmação científica. A investigação futura deverá esclarecer se o local serviu a propósitos cerimoniais, logísticos, ou a uma combinação de ambos, oferecendo novas perspectivas sobre a complexa história das civilizações andinas.
A descoberta deste geoglifo nos Andes, facilitada pela tecnologia moderna, abre um fascinante campo de estudo. A integração de imagens de satélite com investigações de campo detalhadas promete revelar aspectos inéditos sobre as culturas que habitaram a região, enriquecendo nosso entendimento da história sul-americana.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





