A Gerdau apresentou um balanço para o segundo trimestre de 2024 que, em tese, deveria animar investidores. A companhia reportou um lucro líquido ajustado de R$ 1,5 bilhão e um Ebitda ajustado de R$ 3,43 bilhões, superando as expectativas do mercado. Ainda assim, suas ações (GGBR4) fecharam em queda no dia do anúncio, um movimento que expõe a complexa dinâmica entre resultados financeiros e o sentimento do mercado.

A aparente contradição pode ser lida como um clássico movimento de “comprar no boato, vender no fato”, onde investidores realizam lucros após a confirmação das boas notícias. Contudo, a análise mais profunda, conforme reportado pelo Money Times, revela uma cisão estratégica: o motor da companhia está na América do Norte, enquanto a operação brasileira funciona como uma âncora, limitando o otimismo.

O motor americano

O principal destaque do trimestre, segundo o consenso de analistas de bancos como Citi, Itaú BBA e Safra, foi o desempenho da operação norte-americana. A demanda robusta, vinda de setores como energia renovável, data centers e manufatura, sustentou os resultados. O Citi destacou que a carteira de pedidos de aços longos na região permanece acima de 100 dias, o maior nível desde 2021, sinalizando uma performance sólida e previsível para os próximos trimestres.

Para o Itaú BBA, cerca de dois terços da surpresa positiva vieram da América do Norte, beneficiada por preços mais elevados. Essa força externa permitiu à Gerdau apresentar uma margem Ebitda consolidada de 19,2% e reduzir sua alavancagem para 0,69 vez a dívida líquida sobre Ebitda, métricas que, isoladamente, justificariam uma recepção mais calorosa do mercado.

A âncora brasileira

Se a América do Norte foi o destaque positivo, o Brasil representou o contraponto. Embora a operação local tenha se beneficiado de um controle de custos mais eficiente, o cenário geral permanece desafiador. Analistas apontam para uma demanda doméstica ainda moderada e um ambiente de preços competitivo, que limitam a expansão das margens no país.

A visão é de que a recuperação no mercado brasileiro será gradual. O Itaú BBA e o Safra compartilham dessa cautela, notando que, embora haja espaço para melhora com reajustes de preços e uma possível aceleração no segmento de veículos pesados, a realidade atual impõe um freio nas expectativas. É essa dualidade que parece ter pesado mais na decisão dos investidores no pregão.

A reação do mercado às cifras da Gerdau é um lembrete de que um balanço não é apenas uma fotografia do passado, mas uma peça na construção da tese de investimento futura. Apesar da realização de lucros no curto prazo, a visão construtiva e as recomendações de compra mantidas pelos principais bancos de investimento sugerem que, para o capital paciente, a força do motor americano ainda compensa o peso da âncora brasileira.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times