O Brasil permanece como a principal aposta do Goldman Sachs na América Latina, segundo relatório recente divulgado pelos estrategistas da instituição. O banco mantém uma recomendação "overweight" para o mercado acionário brasileiro dentro de sua alocação global de mercados emergentes, sustentada por uma avaliação de que os ativos locais estão subprecificados. Com as ações negociadas a cerca de 8 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, o mercado brasileiro é visto como barato quando comparado tanto às taxas de juros de longo prazo quanto aos padrões históricos de ciclos anteriores de afrouxamento monetário.
A equipe de estratégia, que inclui nomes como Sunil Koul e Kamakshya Trivedi, reconhece que o cenário para o segundo semestre de 2026 exige cautela. A volatilidade deve permanecer elevada devido à proximidade das eleições presidenciais de outubro e às incertezas sobre a trajetória dos juros. No entanto, o banco argumenta que qualquer sinal de alívio na pressão inflacionária, especialmente após a recente redução nos preços de energia, tende a beneficiar diretamente as empresas domésticas mais sensíveis aos juros, que registraram quedas significativas ao longo do ano.
A dinâmica dos fluxos e o impacto macroeconômico
O desempenho do Ibovespa em 2026 tem sido marcado por dois movimentos distintos. No início do ano, o índice foi impulsionado por uma forte entrada de capital estrangeiro, resultando em uma valorização superior a 20% até meados de abril. O otimismo foi alimentado pelo início do ciclo de cortes de juros pelo Banco Central, que favoreceu setores cíclicos. Posteriormente, o setor de energia ganhou protagonismo com a escalada dos preços do petróleo, refletindo tensões geopolíticas globais.
Contudo, desde abril, o mercado devolveu grande parte desses ganhos, com a alta acumulada caindo para menos de 7%. Essa reversão é atribuída pelos estrategistas do Goldman Sachs a uma reavaliação das expectativas macroeconômicas. O mercado de juros, que antes precificava um ciclo agressivo de cortes, passou a antecipar uma trajetória mais curta e incerta. Somam-se a isso a volatilidade política e a correção nos preços das commodities, que forçaram os investidores a ajustar suas posições em ativos exportadores.
Estratégias setoriais para um cenário incerto
Diante da instabilidade, o Goldman Sachs sugere uma rotação tática para empresas domésticas cíclicas de alta qualidade. A recomendação foca em bancos defensivos, serviços de utilidade pública, operadoras de telecomunicações e companhias do setor imobiliário voltadas para a baixa renda. O banco também aponta oportunidades em varejistas que, apesar da pressão recente, apresentam fundamentos sólidos e preços descontados, independentemente do desfecho eleitoral.
O foco na qualidade é a resposta do banco à necessidade de proteção contra a volatilidade esperada. A lógica é que essas empresas possuem maior capacidade de absorver choques macroeconômicos e manter a resiliência operacional, mesmo que o cenário de juros permaneça mais restritivo do que o desejado pelo mercado no curto prazo.
O contraste regional na América Latina
O otimismo com o Brasil não se estende automaticamente aos seus vizinhos regionais. O Goldman Sachs mantém uma postura neutra em relação ao México, citando um crescimento fraco e incertezas persistentes sobre a política comercial com os Estados Unidos e o futuro do acordo USMCA. Para o banco, os riscos estruturais e a falta de catalisadores microeconômicos claros limitam o potencial de alta do mercado mexicano neste momento.
Na Colômbia, a recomendação também é neutra. Embora o resultado das eleições tenha sido inicialmente bem recebido pelo mercado, os estrategistas alertam para a vulnerabilidade a correções. O país enfrenta um contexto de retomada do ciclo de alta de juros e preocupações fiscais de médio prazo, agravadas pela incerteza sobre a implementação das políticas do novo governo, o que desencoraja uma exposição mais agressiva agora.
Pontos de atenção e o futuro das alocações
O principal desafio para o investidor, segundo a análise, permanece na capacidade de distinguir entre ruído político e fundamentos corporativos. A incerteza sobre a política monetária brasileira, que atualmente precifica uma estagnação nos cortes de juros, será o fiel da balança para a performance das ações nos próximos meses. Qualquer sinal de convergência da inflação pode alterar drasticamente essa percepção.
O mercado continuará monitorando de perto o fluxo de capital estrangeiro, que foi o grande motor da alta no início de 2026. A sustentabilidade dessa preferência pelo Brasil dependerá não apenas da atratividade dos múltiplos, mas da clareza sobre o rumo da política fiscal e da estabilidade das instituições. Enquanto isso, a estratégia de manter posições em empresas de qualidade parece ser a única certeza no horizonte.
O posicionamento do Goldman Sachs reforça que, apesar das turbulências, o Brasil ainda oferece uma combinação de risco e retorno que se destaca em um portfólio de mercados emergentes, desde que o investidor esteja disposto a navegar pela volatilidade eleitoral e pelas surpresas do ciclo de juros.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times — Mercados





