A cartografia do Google Maps, frequentemente vista como uma autoridade neutra sobre a geografia mundial, tornou-se alvo de controvérsia na Espanha. A empresa tem classificado as fronteiras terrestres de Ceuta e Melilla com Marrocos como "disputadas", utilizando uma linha pontilhada, a mesma simbologia empregada para territórios onde não há acordo sobre limites. Essa representação, que vigora desde pelo menos 2020, ignora a longa história de soberania espanhola sobre as cidades autônomas, estabelecida por tratados, coroas e conflitos ao longo de séculos.

O Ponto de Tensão

A questão ganhou destaque recentemente após uma entrada massiva de migrantes em Ceuta em julho, que reativou o debate sobre a soberania espanhola. O Observatório de Ceuta e Melilla denunciou a representação do Google Maps, e a associação Zeolandia, atuante no caso judicializado da crise migratória, enviou uma carta formal ao diretor-geral do Google na Espanha. A carta exige um esclarecimento sobre o significado técnico da linha pontilhada e os critérios — tratados, resoluções da ONU ou jurídicos — que embasam essa classificação, argumentando que, ao contrário do Saara Ocidental, Ceuta e Melilla não constam na lista de Territórios Não Autônomos da ONU.

Implicações Geopolíticas e Digitais

A classificação do Google Maps não se limita a uma questão cartográfica. Ela ocorre em um contexto de crescente tensão geopolítica na região e de um debate mais amplo sobre "guerras híbridas". A representação de "território sob administração espanhola em solo marroquino", como algumas fontes americanas têm descrito as cidades, quebra um tabu diplomático e adiciona complexidade à já delicada relação entre Espanha e Marrocos. A cartografia digital, neste caso, reflete e amplifica disputas territoriais, demonstrando que a neutralidade tecnológica é, muitas vezes, uma ilusão, especialmente quando governos ou grupos de pressão exercem influência.

O Papel da Tecnologia na Soberania

A polêmica em torno de Ceuta e Melilla expõe o poder das plataformas digitais em moldar percepções sobre soberania e fronteiras. O eurodeputado espanhol Juan Ignacio Zoido anunciou que levará o assunto à Comissão Europeia, argumentando que, se o Google se baseia em critérios da ONU, a classificação das cidades autônomas estaria em desacordo com o reconhecimento histórico da soberania espanhola pela própria ONU desde 1945. A inclusão da mesma representação cartográfica no portal público de habitação espanhol, Casa 47, adicionou um flanco incômodo ao governo, evidenciando a dificuldade em dissociar a representação digital da realidade política e territorial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka