O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), que lidera o governo da Espanha, rejeitou nesta quarta-feira uma proposta de seus antigos parceiros de coalizão, o partido Podemos, para criar uma rede de supermercados estatal e impor um teto aos lucros das grandes distribuidoras de alimentos. A medida, que visava combater a alta no custo dos produtos básicos, não avançou no Congresso espanhol, encontrando oposição também de partidos de direita e a abstenção do Sumar, atual sócio minoritário do governo.

A recusa do PSOE em apoiar uma medida tão drástica de intervenção no mercado não é apenas um capítulo da complexa política de alianças na Espanha. O episódio serve como um termômetro para o debate econômico em toda a Europa: até onde os governos estão dispostos a ir para mitigar os efeitos da inflação sobre a população? A resposta, vinda de um governo de centro-esquerda, sugere que a ortodoxia econômica ainda prevalece sobre as soluções mais heterodoxas.

O limite da intervenção

A ideia de um "supermercado público" e o controle de margens de lucro são ferramentas que remetem a um manual de economia planificada. A justificativa do Podemos é direta: se o mercado não consegue garantir preços acessíveis para bens essenciais, o Estado deve intervir. Para os críticos, no entanto, a proposta ignora os efeitos colaterais quase certos: desabastecimento, queda na qualidade, distorção da concorrência e um fardo fiscal insustentável para o Estado, que teria de subsidiar a operação.

A proposta espanhola, embora extrema, ecoa debates que ocorrem também no Brasil sobre tabelamento de preços de combustíveis ou alimentos. A diferença crucial é que, na Espanha, a proposta foi formalizada por um partido com representação parlamentar relevante, forçando o governo a se posicionar. A rejeição sinaliza que, mesmo sob pressão popular pelo custo de vida, a criação de estatais em setores competitivos como o varejo é uma fronteira que o establishment político europeu não parece disposto a cruzar.

O cálculo político da esquerda

Ao votar contra a proposta, o PSOE faz um cálculo pragmático. Apoiar a medida poderia acalmar sua ala mais à esquerda, mas arriscaria afastar eleitores de centro e gerar forte instabilidade econômica, afugentando investimentos. A abstenção do Sumar, seu atual parceiro, também é sintomática, revelando uma divisão na própria esquerda sobre o nível de radicalismo aceitável na política econômica.

O episódio ilustra a encruzilhada dos governos progressistas na era pós-pandemia. Pressionados por uma base que exige respostas contundentes para a crise do custo de vida, eles precisam, ao mesmo tempo, gerir economias abertas e integradas ao mercado global. A rejeição do supermercado estatal mostra que, na hora da decisão, a previsibilidade e a estabilidade das regras do jogo pesaram mais do que o apelo ideológico da intervenção.

Enquanto a inflação nos alimentos continuar sendo uma preocupação central para as famílias, propostas como a do Podemos continuarão a surgir. A votação no Congresso espanhol, contudo, deixa claro que o caminho para a sua implementação é íngreme e, por ora, bloqueado até mesmo por aqueles que, em tese, estariam mais abertos a elas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España