O governo federal prepara uma nova linha de crédito subsidiado voltada para motociclistas que atuam como entregadores em plataformas digitais. A iniciativa, que integra um pacote de medidas do Executivo em ano eleitoral, busca facilitar a compra ou a substituição de motos por profissionais vinculados a empresas como o iFood. Segundo apurações, o público-alvo estimado varia entre 700 mil e 1,2 milhão de trabalhadores em todo o país.
Para viabilizar o crédito, o governo estuda utilizar o Fundo de Garantia de Operações (FGO) como mecanismo para mitigar o risco de inadimplência, uma preocupação central dos bancos. A proposta exige que o trabalhador preste serviço a uma plataforma por, no mínimo, seis meses, o que permitiria o desconto das parcelas diretamente na remuneração creditada na conta bancária do profissional.
Mecanismos de garantia e risco
A dificuldade de recuperação dos ativos por parte das instituições financeiras é o principal entrave para a oferta de crédito a esse segmento. Ao contrário de automóveis, a depreciação e a logística de retomada de motos tornam o risco de crédito mais elevado para os bancos. O uso de um fundo garantidor, como o FGO, funciona como um seguro para o credor, permitindo taxas de juros menores do que as praticadas atualmente no mercado de varejo para esse perfil de tomador.
Além da garantia estatal, a exigência de vínculo com plataformas digitais atua como um mecanismo de controle de fluxo financeiro. Ao vincular o pagamento da parcela à receita gerada pelo trabalho na plataforma, o governo tenta garantir a adimplência e reduzir a volatilidade da renda, que é uma característica marcante da economia de aplicativos no Brasil.
Foco em sustentabilidade e inclusão
Um dos diferenciais da proposta é a inclusão de motos elétricas no escopo do financiamento, com preços estimados entre R$ 8 mil e R$ 9 mil. A ausência de exigência de fabricação nacional para esses veículos sinaliza uma tentativa de baratear o custo de entrada para o trabalhador, promovendo uma transição para frotas mais sustentáveis e de menor custo operacional de manutenção e combustível.
O valor médio de uma moto convencional, em torno de R$ 17,8 mil, é significativamente inferior ao teto do programa anterior voltado para motoristas de aplicativos, o Move Aplicativos, que financiou até R$ 150 mil. Essa diferença de escala sugere que o governo busca um impacto social mais direto, atingindo uma base de trabalhadores com menor remuneração média e maior dependência do veículo para a subsistência diária.
Desafios regulatórios e operacionais
A viabilidade da medida depende do alinhamento entre as plataformas, os bancos e o Tesouro Nacional. A necessidade de integrar sistemas de pagamento para viabilizar o desconto em folha exige uma coordenação tecnológica robusta. Além disso, a sustentabilidade do FGO a longo prazo permanece como uma questão em aberto, especialmente em um cenário de alta rotatividade de trabalhadores no setor de entregas.
O cronograma do governo é ambicioso, com o presidente Lula buscando o anúncio da medida ainda este mês. Resta observar como o mercado reagirá à estrutura de garantias proposta e se a iniciativa será suficiente para reduzir, de fato, a barreira de entrada para novos profissionais no setor de entregas por aplicativo.
O sucesso dessa linha de crédito poderá definir se o modelo será replicado em outros segmentos da economia informal, servindo de termômetro para a relação entre o Estado e as plataformas digitais no Brasil.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





