A ciência estadunidense atravessa um momento de instabilidade profunda após a demissão, na última sexta-feira, de todos os 22 membros do conselho da National Science Foundation (NSF). A medida, executada por ordem do governo Trump, esvazia o órgão responsável pela supervisão estratégica e autorização de bilhões de dólares em investimentos científicos. A decisão ocorre em um contexto de cortes orçamentários agressivos e esvaziamento administrativo da agência, que já operava com 40% menos funcionários do que no início de 2025.

A NSF, pilar da pesquisa básica e da educação em STEM desde 1950, encontra-se agora sob uma gestão interina e um processo de transição que prioriza interesses específicos, como a longevidade e a biotecnologia, em detrimento da diversidade de áreas de estudo. Segundo reportagem da MIT Technology Review, a indicação de Jim O’Neill — um investidor sem formação científica — para a diretoria da agência reflete a intenção da Casa Branca de exercer controle absoluto sobre as prioridades de financiamento, eliminando os mecanismos de governança que garantiam independência técnica aos projetos.

O papel do conselho na governança científica

O National Science Board (NSB) funcionava historicamente como um freio e contrapeso, composto por cientistas nomeados para mandatos de seis anos. Sua função transcendia a burocracia, abrangendo a definição de políticas públicas e a chancela de grandes infraestruturas científicas, como o Programa do Telescópio Extremamente Grande. A remoção sumária desses especialistas retira a camada de supervisão que, em tese, protegia a ciência de flutuações políticas de curto prazo.

A desarticulação desses órgãos de governança sugere que o governo atual busca centralizar a tomada de decisão. Keivan Stassun, um dos conselheiros demitidos, aponta que o conselho não possuía ingerência direta sobre as demissões de pessoal ou o congelamento de concessões, mas sua presença ainda representava um compromisso com a continuidade do investimento científico. Sem esse corpo consultivo, a agência torna-se um braço direto do Executivo, vulnerável a mudanças bruscas de direção conforme a agenda da Casa Branca.

Mecanismos de desmonte via orçamento

Embora o Congresso tenha rejeitado propostas orçamentárias que previam cortes de até 57% nas verbas da NSF, o governo tem contornado essa resistência através de manobras administrativas. Ao reduzir o repasse real de verbas e paralisar a concessão de novas bolsas, a administração consegue, na prática, desativar programas inteiros sem a necessidade de uma votação legislativa. Projetos ambiciosos, incluindo o braço de educação científica, já sofrem com a estagnação operacional.

A estratégia reflete um redirecionamento de recursos para áreas consideradas prioritárias, como Inteligência Artificial e computação quântica, enquanto disciplinas como ciências sociais e comportamentais enfrentam ameaças de encerramento total. A lógica é transformar a NSF em uma agência de fomento tecnológico focada em resultados imediatos e aplicáveis, negligenciando a ciência básica que sustenta a inovação de longo prazo.

Implicações para a pesquisa global

O impacto dessa reconfiguração estende-se além das fronteiras dos EUA, dado o papel da NSF como financiadora de colaborações científicas internacionais. A incerteza sobre a continuidade de parcerias e o financiamento de infraestruturas de grande escala pode forçar uma reavaliação por parte de pesquisadores globais. O sistema de ciência, que depende de previsibilidade para o planejamento de décadas, enfrenta agora o risco de ver talentos migrarem para ambientes mais estáveis.

Para o ecossistema brasileiro, a mudança sinaliza um momento de cautela. A dependência de intercâmbios e redes de pesquisa financiadas por agências americanas exige que instituições locais diversifiquem suas parcerias internacionais. A ciência, ao se tornar um terreno de disputa ideológica, perde a capacidade de atuar como uma linguagem universal de progresso, tornando-se, em vez disso, um reflexo das tensões políticas domésticas de Washington.

O futuro da ciência sob nova gestão

A confirmação de Jim O’Neill pelo Senado permanece como um ponto de interrogação crucial. Sua visão de mundo, marcada pelo vitalismo e por uma abordagem não tradicional à biotecnologia, levanta questões sobre como a agência tratará os princípios éticos e metodológicos que regem a pesquisa científica contemporânea. A ausência de um cientista de carreira na liderança da NSF é um precedente raro que preocupa a comunidade acadêmica.

O cenário para os próximos meses é de uma agência em transição forçada, onde a governança técnica foi substituída pela diretriz política. A grande questão que permanece é se a estrutura da NSF sobreviverá ao atual ciclo com sua capacidade de fomento à pesquisa básica intacta. Observar a execução do orçamento de 2027 será determinante para entender o tamanho do dano causado à infraestrutura científica americana.

A ciência, enquanto processo, exige tempo e estabilidade, elementos que parecem estar em escassez na atual administração. O desmonte da governança técnica não é apenas um corte de gastos, mas uma mudança na natureza da própria agência, que transita de uma instituição de fomento à pesquisa para um instrumento de política industrial. Resta saber como o sistema acadêmico, historicamente resiliente, reagirá à perda de autonomia em seus principais centros de financiamento.

Source · MIT Tech Review Brasil