O cenário idílico das Nebraska Sandhills, um vasto mosaico de dunas gramíneas, rios sinuosos e gado pastando, esconde uma ameaça crescente e paradoxal: o excesso de árvores. Shelly Kelly, criadora e defensora da preservação das pradarias, observa com apreensão o fenômeno conhecido como "encroachment lenhoso", ou "geleira verde", onde espécies arbóreas avançam sobre as pastagens. O que antes eram barreiras de vento deliberadamente plantadas por pecuaristas para proteger o gado, hoje se espalham descontroladamente, como corredores que rompem a paisagem original.
Essa invasão de árvores, especialmente o cedro-vermelho-do-leste (Juniperus virginiana), está reconfigurando ecossistemas que evoluíram em ciclos de estabilidade e perturbação. Para os pecuaristas, o impacto é direto: menos área para pastagem. Estimativas da Texas A&M Agrilife apontam para perdas de US$ 4 bilhões em produção pecuária nas dez maiores planícies dos Estados Unidos devido a esse avanço. Ecologistas alertam para a drástica redução da biodiversidade, afetando insetos, aves e pequenos mamíferos que dependem das pradarias. Além disso, a sede dessas árvores levanta preocupações sobre o já estressado suprimento de água, à medida que a "geleira verde" avança das regiões mais úmidas do leste para as áreas áridas do oeste.
Um ecossistema sob pressão
As pradarias, tanto nas Grandes Planícies quanto globalmente, prosperam em um delicado equilíbrio entre estabilidade e disrupção. Fogo, pastagem, estações secas e a interação entre diferentes espécies vegetais são cruciais para manter sistemas radiculares saudáveis, que sustentam o crescimento contínuo de uma diversidade de gramíneas. Algumas espécies, com raízes que atingem até seis metros de profundidade, garantem a resiliência em períodos de seca, enquanto o solo fértil abriga sementes dormentes prontas para germinar quando as condições são favoráveis. Historicamente, o fogo — natural ou provocado — era um elemento intrínseco desse ecossistema, moldando a paisagem e favorecendo as gramíneas. A supressão desse fogo, no entanto, permitiu que plantas lenhosas se estabelecessem, crescessem e desenvolvessem cascas mais grossas, tornando-as mais resistentes a futuras queimadas. Paralelamente, o superpastoreio reduz a competição das gramíneas, acelerando o crescimento de árvores e arbustos, que não são o alimento preferencial de gado e bisões. Embora outras espécies de herbívoros possam controlar a expansão em certa medida, a escala do problema exige soluções mais abrangentes.
Mudanças culturais e climáticas
As Flint Hills, no Kansas, e as Osage Hills, em Oklahoma, abrigam dois terços das pradarias de gramíneas altas remanescentes nos EUA. A persistência desses ecossistemas deve-se, em grande parte, à cultura de queimadas prescritas, que remonta aos tempos das grandes movimentações de gado pela Chisholm Trail. Documentos históricos, como contratos de arrendamento de 1915, já exigiam a queima regular da terra para garantir o acesso do gado ao novo crescimento nutritivo. Em contraste, regiões como as Sandhills em Nebraska carecem dessa tradição. A cultura local, historicamente ligada ao plantio de árvores — Nebraska foi apelidada de "Estado Plantador de Árvores" devido a leis como o Homestead Act de 1862 e o Kinkaid Act de 1904 —, agora precisa ser reorientada. A mudança cultural é um desafio central, como aponta Kelly, que lidera a Sandhills Task Force: "Não estamos dizendo que árvores são ruins em todos os lugares, mas árvores não são boas em uma pradaria, especialmente árvores invasoras". A mensagem é clara: "Seja um Líder, Corte um Cedro".
Além da mudança cultural no manejo da terra, há uma reavaliação do papel das árvores na narrativa climática. A sabedoria convencional associa o plantio de árvores à virtude climática, mas pesquisas indicam que as pradarias podem ser sumidouros de carbono mais seguros do que as florestas. O ciclo de fogo e a rápida regeneração das gramíneas após queimadas garantem que o carbono permaneça armazenado no subsolo, em seus extensos sistemas radiculares. Florestas, ao contrário, liberam grandes quantidades de carbono quando queimam, e a recuperação pode levar anos. Há indícios de que o aumento de CO2 atmosférico favorece plantas lenhosas, que realizam fotossíntese de forma mais eficiente em ambientes quentes e secos. Contudo, a perda de um ecossistema resiliente e eficiente no armazenamento de carbono a longo prazo não compensa ganhos de curto prazo na captura de CO2.
O papel da intervenção e o futuro das pradarias
Uma estratégia de "não intervenção" torna-se inviável nas Grandes Planícies. O ecossistema das pradarias evoluiu em simbiose com a intervenção humana desde os povos indígenas que caçavam bisões. Atualmente, organizações como a The Nature Conservancy colaboram com o InterTribal Buffalo Council para reintroduzir bisões e restaurar ecossistemas, reconhecendo o papel vital dos pecuaristas nessa equação. Chris Helzer, diretor de ciência e conservação da The Nature Conservancy em Nebraska, destaca que muitos pecuaristas estão engajados na gestão ativa de suas terras. O pai de Kelly, John Taylor, é um exemplo, mantendo o cedro sob controle em sua propriedade, embora a vigilância seja constante contra a proliferação das sementes. A Sandhills Task Force auxilia pecuaristas a remover cedros, cobrindo até 75% dos custos através de subsídios e captação de recursos, embora paradoxalmente, órgãos governamentais ainda subsidiem o plantio de árvores para quebra-ventos, mesmo desencorajando o cedro-vermelho. A The Nature Conservancy testa padrões de pastagem e novas misturas de espécies em suas reservas para ajudar proprietários privados a encontrar o equilíbrio ideal entre pastagem, queimadas e reintrodução da vida selvagem. A linha entre uma pradaria com árvores e um bosque com clareiras é tênue, e cruzá-la significa perder a essência do ecossistema. Restando apenas 4% das pradarias de gramíneas altas originais, a oportunidade de preservar esses ambientes únicos é urgente e requer um esforço conjunto para "acertar as contas" com a natureza.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Grist





