O silêncio que tomou conta dos corredores do Arsenale na manhã de 8 de maio não era o vazio habitual que precede a abertura de uma exposição, mas uma presença densa e deliberada. Pela primeira vez em seus 131 anos de existência, a Bienal de Veneza enfrentou uma greve que não apenas interrompeu o fluxo de visitantes, mas questionou a própria legitimidade da instituição como um espaço neutro de celebração estética. Ao menos 27 dos cem pavilhões nacionais optaram pelo fechamento, enquanto artistas cobriam suas obras ou alteravam instalações em um gesto de solidariedade que ecoou pelas ruas de Veneza, culminando em uma marcha que reuniu milhares de pessoas sob bandeiras palestinas.

A política como parte da obra

A interrupção reflete uma mudança tectônica na forma como o mundo da arte contemporânea percebe seu papel na geopolítica. O movimento, articulado pela Art Not Genocide Alliance (ANGA) em conjunto com coletivos locais como Sale Docks e Biennalocene, argumenta que a neutralidade institucional tornou-se uma forma de conivência. Para muitos dos artistas envolvidos, a ideia de que a Bienal possa operar como um enclave à parte dos conflitos globais é uma ilusão insustentável. O fechamento dos pavilhões — incluindo nações como França, Espanha, Japão e Holanda — transformou a ausência de arte em uma declaração política mais sonora do que qualquer vernissage tradicional poderia oferecer.

O custo do ativismo

A tensão atingiu seu ápice nas proximidades do pavilhão israelense, onde a polícia de choque italiana formou barricadas para conter os manifestantes que buscavam o acesso ao Arsenale. O confronto físico, marcado pelo uso de cassetetes e escudos, contrastou com a natureza contemplativa que se espera de um evento cultural de tal magnitude. A participação de artistas como Gabrielle Goliath, cuja exposição sobre as vítimas em Gaza foi cancelada pelo governo sul-africano e posteriormente realocada por iniciativa independente, ilustra a fragilidade da autonomia artística diante das pressões estatais. O ativismo aqui não é um complemento à obra, mas a própria condição de sua existência.

Tensões laborais e éticas

Além do protesto político, a greve trouxe à tona uma insatisfação latente quanto às condições de trabalho no setor cultural. A adesão de três sindicatos italianos à paralisação sinaliza que a precariedade laboral na indústria criativa está cada vez mais conectada às pautas éticas dos trabalhadores. A Bienal, que historicamente atua como um motor econômico e de prestígio para Veneza, viu-se forçada a lidar com a indignação de uma classe que recusa a premissa de que a arte deve ser produzida a qualquer custo ou sob qualquer patrocínio estatal que considerem questionável.

O futuro da Bienal

O que permanece incerto é como a Bienal de Veneza reagirá a essa nova pressão. A instituição, que historicamente serviu como uma vitrine diplomática, agora se vê diante de um dilema: manter o formato tradicional ou adaptar-se a um ecossistema artístico que exige maior responsabilidade política e transparência. A imagem dos pavilhões fechados e as declarações de artistas como Nina Katchadourian deixam uma pergunta persistente sobre o papel da arte em tempos de crise. Se a destruição é global, pode a Bienal continuar sendo apenas um evento de mercado e diplomacia, ou o futuro das grandes exposições está, irrevogavelmente, na sua politização?

O eco dos gritos na Via Garibaldi e o vazio dos pavilhões fechados deixam um rastro que a organização do evento dificilmente conseguirá ignorar nas próximas edições. A Bienal de Veneza, antes um destino de consumo cultural, tornou-se um espelho das fraturas do mundo real, forçando seus visitantes a encarar o que acontece fora das paredes dos palácios venezianos.

Com reportagem de Hyperallergic

Source · Hyperallergic