A guerra na Ucrânia transcendeu as fronteiras terrestres e agora interfere em infraestruturas vitais no espaço. Um estudo científico recente indica que os inibidores de GPS russos, dispositivos que emitem ruído de rádio para sufocar as emissões de navegação de satélites, estão desorientando satélites europeus em órbita a centenas de quilômetros de altura. Essa interferência, antes associada a aeronaves e embarcações, agora compromete o cálculo de posição de satélites de observação da Terra e de comunicação, afetando serviços essenciais como previsão do tempo, controle de colheitas, mapas e resposta a desastres, além de tarefas de segurança cruciais para a Europa.

A Guerra Eletrônica Alcança a Órbita

Os inibidores de GPS, conhecidos por sua capacidade de desorientar aviões e navios em solo e mar, demonstraram um alcance muito maior do que se imaginava. Segundo a pesquisa, liderada por Kian Bostani Nezhad, doutorando da Universidade Técnica da Dinamarca (DTU), as interferências alcançam naves em altitudes entre 400 e mais de 800 quilômetros. Em alguns casos, essa interferência impede que os satélites calculem sua própria posição, uma função vital para suas operações. O estudo aponta que satélites europeus de observação da Terra na área afetada sofrem cortes no acompanhamento de sinal dez vezes maiores do que em áreas equivalentes no hemisfério sul. O mapa SAT-JAM, criado a partir dos dados, visualiza essa interferência diária, concentrada na fronteira entre Rússia e Ucrânia.

Mecanismos e Impactos da Interferência

O estudo analisou dados de missões como Swarm e Copernicus Sentinel da ESA, e Lemur-2 da Spire, entre 2021 e 2026. Esses satélites utilizam sinais de sistemas globais de navegação por satélite (GNSS), como GPS, Galileo, GLONASS e BeiDou, para determinar sua posição. A interferência afeta a relação entre a potência do sinal e o ruído de fundo, prejudicando a precisão. O fenômeno tem crescido exponencialmente, com um aumento de mais de três vezes nas células de mapa com medições inibidas entre 2023 e 2026, e um salto significativo na média de medições afetadas. A degradação da sinal se tornou mais evidente a partir de 2024, com um padrão diário de piora noturno surgindo em 2026. O impacto é severo: um satélite de observação precisa saber exatamente onde cada imagem é capturada, e satélites de comunicação dependem de sua posição para orientar antenas, serviços que vão desde a previsão do tempo até a segurança continental.

Implicações para a Europa e o Mundo

A guerra eletrônica, antes vista como um problema mais terrestre, agora afeta diretamente a infraestrutura espacial europeia. O estudo sugere que a potência do emissor pode chegar a 383 quilowatts, e a falta de obstáculos entre o solo e o satélite em órbita baixa facilita a tarefa de inibir o sinal. A interferência atinge múltiplos sistemas GNSS, indicando um emissor de banda larga. A pesquisa também destaca que futuras gerações de satélites precisarão ser projetadas considerando essas interferências como um risco inerente. Embora a Europa seja a região mais afetada, o mapa SAT-JAM também detecta interferências em partes do Sudeste Asiático, indicando um problema com potencial alcance global. A Agência Europeia de Segurança Aérea já documenta quedas de sinal em aeronaves, e a tendência é que o conflito eletrônico se intensifique ou mude conforme a guerra na Ucrânia avança.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Navegação Espacial

Apesar da clareza sobre a localização da interferência e seu impacto, muitas incógnitas persistem. O estudo SAT-JAM identifica onde os satélites sofrem a interferência, mas não consegue distinguir se a ação é intencional ou um efeito colateral da guerra, nem identificar o emissor exato. O trabalho não abrange o spoofing (suplantar sinais para enganar receptores) e trabalha com dados já processados, não com o sinal bruto. O motivo da falta de dados de radio-ocultação de Spire sobre a Europa, e a variação do impacto entre satélites, também permanecem em aberto. Operadores de satélites provavelmente sabem do problema, mas raramente o comentam publicamente. A pesquisa deixa duas leituras: uma positiva, onde satélites interferidos podem atuar como uma rede de sensores para monitorar a própria interferência; e outra negativa, onde a guerra eletrônica terrestre ameaça a infraestrutura espacial vital.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech