Hanif Abdurraqib, conhecido por sua prosa lírica e perspicaz, dedica um ensaio à obra e ao pensamento de June Jordan, destacando a urgência de sua mensagem em tempos contemporâneos. A partir de sua experiência com jovens escritores em Columbus, Ohio, Abdurraqib encontra em Jordan uma mestra que ensina a poesia como um ato de vida, uma força motriz contra a inércia e a apatia.

Abdurraqib relata o trabalho voluntário que realiza com adolescentes em sua cidade natal, um espaço onde a escrita é tratada com equidade e onde ele próprio é desafiado a buscar respostas ao lado de seus alunos. Essa dinâmica de aprendizado mútuo o leva a revisitar um trecho icônico de June Jordan, onde ela declara com paixão: "a vida é AÇÃO, inação é MORTE!". Essa máxima encapsula a essência do que move a obra de Jordan: um espanto diante da passividade frente às crueldades do mundo e um chamado incessante à ação coletiva.

A Poesia como Ponto de Inflexão

Para Abdurraqib, a obra de Jordan transcende a mera expressão artística; ela se configura como um ponto de inflexão, um catalisador para a mudança. Ele observa como os jovens escritores com quem trabalha frequentemente relatam que, após escreverem sobre algo que os impactou, sentem-se impulsionados a seguir adiante com clareza renovada. Essa capacidade da poesia de gerar movimento e clareza é um dos ensinamentos centrais que Abdurraqib tenta transmitir, e que, paradoxalmente, os próprios jovens ensinam a ele.

A iniciativa de Abdurraqib de trabalhar com adolescentes fora do ambiente escolar tradicional surge, em parte, de sua própria trajetória educacional não convencional e de sua percepção de que as escolas muitas vezes priorizam a ordem e a conformidade em detrimento da criatividade emergente. Ele aponta para a rigidez das instituições de ensino, que podem, inadvertidamente, ensinar aos jovens que eles são perigosos antes mesmo de aprenderem a ser criativos. Jordan, em contrapartida, propunha que a escrita fosse uma forma de "tornar-se uma ameaça aos nossos inimigos", uma inversão do perigo que se volta para a ação transformadora.

Um Cânone Expansivo e Inclusivo

Abdurraqib também reflete sobre a formação de cânones literários e a exclusão que muitas vezes a acompanha. Ele questiona quem tem o poder de definir o que é valioso e quem é incluído. "Poetry for the People", o livro em análise, ao apresentar os trabalhos de diversos poetas, expande essa noção de cânone, afirmando que qualquer um que escreva um poema é um poeta digno de espaço. Essa inclusão é um ato de empoderamento, incentivando indivíduos a reconhecerem seu próprio valor e potencial para a ação.

A experiência de Jordan, que utilizava poemas em protestos, demonstra a força da palavra falada em público, não como uma performance individual, mas como um elo que lembra aos manifestantes o motivo de estarem ali e a importância de permanecerem juntos. Essa ideia de que "ninguém é descartável e todos têm algo a oferecer" é um dos pilares da filosofia de Jordan, e a poesia, para ela, serve como ponte para essa revelação. A honestidade radical, a verdade como base para qualquer ação principiada, é central em sua abordagem, mesmo diante de diretrizes rigorosas para a crítica poética.

O Legado da Ação e da Honestidade

O legado de June Jordan, segundo Abdurraqib, reside em sua busca incessante por como cuidar melhor das pessoas e oferecer-lhes o que precisam para viver e escrever honestamente, impulsionando-as, eventualmente, para a ação. Esse trabalho, que se manifestava em sua época, continua vivo em slams de poesia, microfones abertos em espaços artísticos radicais e em qualquer lugar onde a palavra escrita seja tratada com equidade e acessibilidade, carregando consigo a responsabilidade de inspirar e mobilizar.

Abdurraqib encoraja os leitores a se questionarem: "o que me moveria à ação?". Essa pergunta, central para a obra de Jordan e para a experiência de Abdurraqib com jovens escritores, convida a uma reflexão profunda sobre o papel da arte e da expressão individual na construção de um mundo mais justo e engajado. A obra de Jordan, e a análise de Abdurraqib, servem como um lembrete de que a inação é uma forma de morte, e que a vida, em sua plenitude, é um convite constante à ação transformadora.

Com reportagem de Brazil Valley

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