Na sede da Delvaux em Bruxelas, um lago negro repousa sob um teto de vidro, suas águas imóveis adornadas por lírios brancos e cercadas por bambu. Figuras infantis parecem isoladas em suas margens, e um objeto celestial gira lentamente acima, tudo imerso em uma paleta monocromática de cinzas. Esta é a mais recente intervenção do artista belga Hans Op de Beeck, que transportou seu universo peculiar e silencioso para o Delvaux Arsenal, um espaço que abriga a história, o ateliê e o museu da renomada casa de artigos de couro.

A instalação imersiva se estende pelo espaço, apresentando um lago em trompe-l'oeil, vegetação escultural, sofás Chesterfield e objetos que remetem a diferentes fases do trabalho de Op de Beeck. Bolsas da Delvaux, incluindo uma interpretação exclusiva do modelo Brillant, são exibidas em pedestais clássicos, algumas habitadas por pequenos pássaros, adicionando um toque de doçura à cena.

Um Diálogo Belga: Surrealismo e Artesanato

A colaboração entre Op de Beeck e Delvaux faz sentido na tapeçaria cultural belga. A Delvaux, fundada em Bruxelas em 1829, um ano antes da própria existência da Bélgica, compartilha com o país um apreço pelo surrealismo, pela irreverência e pela seriedade com que se tratam as coisas belas, sem, contudo, perderem o bom humor. Hans Op de Beeck, por sua vez, dedica sua carreira à criação de "ficções visuais": esculturas, instalações e filmes que imobilizam a vida cotidiana, convidando à contemplação sobre a estranheza da existência. Para Jean-Marc Loubier, CEO da Delvaux, a proposta não era meramente decorativa, mas sim encontrar uma "maneira de entrelaçar essas duas fortes personalidades", unindo não apenas a identidade belga, mas uma sensibilidade compartilhada por objetos, pessoas e o tempo dedicado à criação.

A Estética do Cinza: Evocando Emoções

Op de Beeck é conhecido por seus ambientes monocromáticos, uma escolha estética que, segundo ele, não visa simular a realidade, mas sim evocar um estado de espírito e uma atmosfera. Ao despojar suas criações de cor, o artista direciona o foco para as emoções e as camadas mais profundas da existência, onde a cor, muitas vezes anedótica, poderia distrair. "A cor pode frequentemente se tornar anedótica", explica o artista. "No entanto, eu a uso em meu trabalho escultural sempre que é necessária como uma camada de significado." Essa abordagem ressoa com a dedicação à manufatura e ao refinamento, valores centrais tanto para o trabalho de Op de Beeck quanto para a Delvaux. A criação de uma bolsa Delvaux pelo próprio artista, sem ser solicitado, exemplifica essa conexão intrínseca.

Tempo, Tranquilidade e a Reinterpretação do Brillant

A instalação no Arsenal, com sua dimensão paisagística e caráter de espaço de trânsito, inspirou Op de Beeck a criar um lago interior refletivo. "É uma interpretação escultural de um lago e jardim internos, congelados no tempo e renderizados inteiramente em preto, branco e tons de cinza", descreve o artista. Este espaço funciona como um refúgio contra a "frenesi da vida diária e a corrida dos ratos", oferecendo um momento de pausa e contemplação. A reinterpretação da icônica bolsa Brillant pela Delvaux sublinha a visão de Op de Beeck sobre a ausência de hierarquia de valor entre artes e ofícios. Para ele, "bolsas são objetos funcionais, mas também incorporam forma e significado, carregando memórias, histórias e relacionamentos". Essa visão se alinha à ideia de que objetos portáteis, que nos acompanham e que temos o prazer de segurar, aproximam-se da natureza tátil da escultura.

Havens de Calma e Reflexão

Questionado sobre onde mais aplicaria suas instalações, Op de Beeck sugere locais que necessitam de "silêncio, calma, poesia e consolo", como hospitais. A ideia de integrar "refúgios de tranquilidade" em ambientes de cura, oferecendo gentileza em face da doença e da mortalidade, demonstra a ambição do artista em usar sua arte para promover bem-estar. Embora o cinza seja sua marca registrada, ele não descarta o uso de cores, aplicando-as seletivamente para adicionar significado. Sua linguagem visual, já intrinsecamente narrativa, encontra abstração na presença ou ausência de cores específicas, deslocando o foco da mimesis para a evocação de sentimentos e experiências autênticas.

A instalação de Hans Op de Beeck na Delvaux é mais do que uma exposição; é um convite à introspecção em um mundo cada vez mais acelerado, onde a beleza reside tanto na contemplação quanto na criação cuidadosa.

Com reportagem de Brazil Valley

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