Heikki Salonen, designer com passagem marcante pela MM6 Maison Margiela, assumiu no início de 2026 o cargo de primeiro diretor criativo da Salomon. A nomeação marca um momento de transição para a empresa de quase 80 anos, que viu sua popularidade explodir fora dos circuitos esportivos tradicionais nos últimos anos. Em entrevista exclusiva, o designer estabeleceu um limite claro para o futuro da marca: a Salomon nunca deve se tornar uma grife de moda.
Segundo reportagem da Highsnobiety, a tese de Salonen é que o valor central da marca reside na sua capacidade de criar produtos de alta performance que, por acaso, são adotados por comunidades fashionistas. O desafio, portanto, não é buscar a estética pela estética, mas sim manter a integridade técnica que permite a um atleta correr 160 quilômetros, garantindo que essa mesma qualidade continue atraindo o público urbano.
A preservação da identidade técnica
Para Salonen, a Salomon compartilha uma semelhança fundamental com a Maison Margiela: a profundidade de um produto que funciona como uma cebola, revelando novas camadas a cada interação. Ele observa que, embora o mercado tenha se concentrado em apenas três ou quatro silhuetas icônicas nos últimos cinco anos, a história da empresa abrange desde o esqui cross-country até o montanhismo extremo e o surf.
A estratégia de preservação proposta pelo diretor criativo não é a de um museu ou de um arquivo estático. Pelo contrário, ele defende que a marca precisa continuar inovando e criando produtos "estranhos" e específicos. O objetivo é evitar que a Salomon se curve às pressões de um mercado que busca apenas o que é visualmente agradável, preferindo manter o que ele chama de "essência nerd" da engenharia de calçados.
O choque entre performance e luxo
O designer aponta um contraste notável entre a indústria de vestuário esportivo e o mercado de luxo. Enquanto uma jaqueta de alta performance com GORE-TEX custa cerca de 700 dólares, um item similar em uma marca de luxo pode atingir valores proibitivos sem oferecer a mesma tecnologia de materiais. Para Salonen, essa disparidade reforça por que os consumidores estão votando com os pés, buscando valor real e funcionalidade em meio à oferta de moda.
O mecanismo de sucesso, segundo ele, é permitir que o produto seja "mal utilizado" em contextos diferentes. O fato de um tênis de trilha ser usado tanto por um agricultor quanto por um frequentador da Semana de Moda de Paris é, para o designer, a prova definitiva de que o design técnico possui um valor cultural autêntico. A transição cultural, impulsionada em parte pelas mudanças de comportamento pós-pandemia, consolidou essa relevância da cultura outdoor.
Tensões no ecossistema de mercado
As implicações dessa visão são profundas para os competidores e para os reguladores de tendência. Ao recusar o rótulo de marca de moda, a Salomon se posiciona contra a obsolescência programada típica das coleções sazonais. A tensão reside em como manter a credibilidade junto aos atletas de elite enquanto a marca é consumida como um objeto de desejo estético por um público global que raramente pisa em uma trilha.
Para o mercado brasileiro, que tem visto uma crescente adoção de marcas técnicas no vestuário urbano, a postura de Salonen oferece um contraponto interessante. A busca por produtos que equilibram performance e estilo não é um fenômeno passageiro, mas uma mudança na percepção de valor. A Salomon tenta, assim, evitar a armadilha de se tornar apenas uma tendência que, eventualmente, será substituída pela próxima novidade do setor de luxo.
O futuro da estética funcional
O que resta incerto é se a marca conseguirá manter essa "estranheza" técnica conforme a escala de produção aumenta. Salonen admite que a mudança é difícil e que preservar a alma da empresa exigirá um esforço constante para não ceder à tentação do design simplificado que o mercado de massa frequentemente exige.
O olhar do mercado deve se voltar para como a Salomon comunicará seus próximos lançamentos. Se a comunicação for tão peculiar quanto os produtos, a marca pode conseguir navegar entre o mundo da performance e o do estilo sem perder sua identidade. A dúvida permanece sobre quanto tempo esse equilíbrio entre utilidade extrema e status cultural pode ser sustentado sem que a marca perca sua essência original.
A evolução da Salomon sob a liderança de Salonen será um estudo de caso sobre como empresas de nicho técnico lidam com a popularidade global. O mercado observa atentamente se a estratégia de "manter-se estranho" será suficiente para garantir a longevidade em um cenário onde a moda busca constantemente absorver e diluir a autenticidade de marcas funcionais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Highsnobiety





