O cheiro de borracha queimada, o ronco dos motores e a adrenalina pura. Para muitos, o automobilismo evoca uma imagem de potência bruta e velocidade vertiginosa. Mas e se essa narrativa pudesse ser recontada, não apenas pela performance na pista, mas pela própria origem dos materiais que compõem o espetáculo? É essa a proposta de Heron Preston, designer conhecido por sua abordagem vanguardista à sustentabilidade na moda, em sua nova e ambiciosa parceria com a Fórmula E.

Previewed no último fim de semana no ComplexCon, em Los Angeles, a colaboração entre Preston e a categoria de automobilismo elétrico é mais do que uma simples coleção de roupas. É uma declaração de princípios. Ao lado de um carro de corrida GEN4 com a identidade visual de Heron Preston, foram apresentadas peças de vestuário confeccionadas a partir de materiais reciclados provenientes da própria Fórmula E. "Nós dois reutilizamos energia. Eles fazem isso na pista. Eu faço com materiais, pegando o que seria desperdiçado e transformando em design", explica Preston, traçando um paralelo direto entre a recuperação de energia dos carros elétricos e seu próprio processo criativo.

A filosofia por trás do material

A parceria não surgiu por acaso. Durante a fase de pesquisa, Preston descobriu que a própria Fórmula E já possuía um forte DNA sustentável, com seus carros elétricos recuperando energia sob frenagem e reincorporando-a ao sistema. Essa sinergia ressoou profundamente com a filosofia de trabalho de Preston, que há mais de uma década se dedica a dar nova vida a materiais com história. A Fórmula E, com seu universo de peças e componentes, ofereceu um campo fértil para essa exploração. "O que me surpreendeu foi a quantidade de material reciclado já presente no próprio vestuário da Fórmula E. Está em seu DNA", afirma o designer.

As peças apresentadas no ComplexCon são fruto do projeto eX-Ray, a linha "menos destrutiva ambientalmente" (L.E.D.) mais avançada de Preston. Aqui, cada elemento de um produto é escrutinado, desde a fibra até as mãos que o produzem. Preston desenvolve seus próprios tecidos, partindo do zero, em vez de encomendá-los prontos. Para este lançamento, ele utilizou um tecido que já vinha desenvolvendo: algodão reciclado, fiado a partir de sobras de produção pré-consumo, que são separadas, trituradas e re-fiadas em um fio robusto e denso. "É um tecido no qual acredito: resíduos de fábrica transformados em algo novo", declara. O padrão de qualidade de Preston para tais materiais é inspirado no vestuário de trabalho e militar, peças que também são intrinsecamente de alta performance e durabilidade. "Cada detalhe tem que justificar seu lugar", argumenta.

O design que fala a origem

Para Heron Preston, o automobilismo representa a versão extrema dessa filosofia de design utilitário. Sua regra de ouro é que cada peça deve carregar elementos suficientes de sua origem – a cor, a textura, a forma como foi concebida para o esporte – para que qualquer um possa identificar sua procedência. Essa crença moldou tanto o carro GEN4 quanto as roupas. Preston apostou nas cores vibrantes e nos grafismos chamativos que o atraíram para o automobilismo desde a infância. A cor laranja, institucional da marca HP, foi elevada a um acabamento cromado que reflete a luz nas curvas, contrastando com uma textura fosca. Elementos gráficos no próprio carro, como "Zero Metais de Terras Raras" e "600kW Potência Máxima", servem para destacar o avanço tecnológico da geração GEN4.

O design para um carro de corrida, que é visto de longe e em altíssima velocidade, ensinou a Preston uma lição de economia e clareza. "Um carro é visto de longe, a 200 mph, por uma fração de segundo. Isso muda tudo. Me fez simplificar", reflete. Cada marca, cada linha, precisava ser legível em plena velocidade. Essa mesma simplicidade e clareza se refletem nas peças de vestuário, que buscam comunicar a história de seus materiais de forma direta e impactante, afastando-se do "logo em um fundo branco" que muitas vezes define o merchandising esportivo tradicional.

Implicações para o futuro da moda

A parceria se insere em um histórico de trabalho de Preston com materiais reaproveitados, como o projeto UNIFORM de 2016, que deu nova vida a uniformes da prefeitura de Nova York, ou peças feitas a partir de airbags de testes de colisão da Mercedes-Benz e placas de rua recuperadas. A Fórmula E representa o próximo capítulo dessa jornada, expandindo a questão para uma escala maior: "Qual é o material que já existe e o que ele pode se tornar?" A categoria responde com um vasto acervo de materiais com histórias próprias. O plano vai além da apresentação inicial, contemplando a criação de vestuário de performance, acessórios e mercadorias para fãs, todos feitos a partir de componentes reciclados do esporte.

É no merchandising, contudo, que Preston vê o maior potencial de transformação. "Quero que o fan gear seja a peça mais bem feita nas arquibancadas, não apenas um logo estampado", almeja. O contato direto e a posse duradoura do item pelo fã tornam o merchandising o verdadeiro teste de validade para a filosofia de design. É onde a maioria das pessoas tem o primeiro contato com a ideia. A escolha de apresentar a coleção no ComplexCon, um evento que reúne cultura, moda, música e design, foi estratégica: "ComplexCon é cultura. Estamos encontrando [o público] onde eles já estão", diz Preston, utilizando a moda como porta de entrada para apresentar o esporte a um público mais amplo e engajado.

Perguntas que permanecem

O sucesso dessa iniciativa, para Preston, será medido a longo prazo. A sustentabilidade é o ponto de partida para ambas as operações: a forma mais limpa de correr da Fórmula E e o modo mais honesto de criar de Preston. Ele saberá que o padrão evoluiu quando o produto, feito a partir dos materiais do próprio esporte, permitir que os fãs leiam exatamente do que seu equipamento é feito. A verdadeira identidade visual, neste caso, não está apenas no carro, mas nas roupas que vestem a história de sua origem, exibida com orgulho. A questão que fica é se essa abordagem, que une a vanguarda da moda sustentável com a paixão do esporte a motor, conseguirá redefinir o futuro do merchandising esportivo e inspirar outras categorias a seguir o mesmo caminho, transformando o que antes era visto como resíduo em declarações de estilo e consciência.

Com reportagem de Brazil Valley

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