O Governo de Países Baixos deu um passo audacioso em direção à otimização do gasto público, anunciando um plano para eliminar 25.000 postos de trabalho de funcionários públicos até 2035. A estratégia centraliza-se na redução da burocracia e, principalmente, em um investimento massivo em inteligência artificial (IA) para gerenciar recursos de forma mais eficiente. A meta é clara: economizar cerca de €3,5 bilhões no orçamento público até lá, com um corte inicial de €900 milhões já previsto para 2027.

Eric van den Burg, secretário de Estado para uma Administração Eficaz, justificou a medida como uma necessidade inadiável para modernizar o Estado. "Não podemos seguir fazendo o mesmo. (...) devemos reduzir significativamente os gastos da administração. Por isso, vamos tomar decisões difíceis para lograr um governo central que funcione de verdade: mais simples, mais eficiente e menor", afirmou, sinalizando uma reestruturação profunda no modelo de gestão pública neerlandês.

O Mecanismo da Transformação Digital

A aposta em IA não é apenas uma questão de corte de custos, mas uma visão de como a tecnologia pode redefinir a prestação de serviços públicos. O plano prevê a aplicação de IA para otimizar a gestão de recursos, incluindo o uso de espaços de trabalho, o que já teria levado ao fechamento de edifícios considerados "desnecessários". A partir do primeiro trimestre de 2027, o governo apresentará metas e planos específicos para a implementação da IA, com o objetivo declarado de aumentar a produtividade do setor público.

A iniciativa holandesa reflete uma tendência global de governos que buscam incorporar tecnologias de ponta para melhorar a eficiência e reduzir o desperdício. Países que já avançaram em digitalização de serviços, como a Estônia, servem de referência, embora a escala e o objetivo de redução de pessoal nos Países Baixos sejam notavelmente mais agressivos. A questão central é se a IA será capaz de replicar a complexidade e a nuance das interações humanas necessárias em muitas funções públicas, especialmente em áreas que exigem empatia, julgamento ético e capacidade de lidar com situações imprevistas.

Simplificação Regulatória como Pilar Adicional

Paralelamente ao investimento em IA, o governo neerlandês pretende reduzir e eliminar regulamentações consideradas excessivas ou desnecessárias. Uma nova Lei de Simplificação visa diminuir o esforço, tempo e dinheiro que residentes, profissionais e empresas dedicam a trâmites burocráticos. A meta é ambiciosa: eliminar ou simplificar pelo menos 500 regulamentações por ano. Essa medida busca não apenas reduzir custos internos, mas também tornar o ambiente de negócios e a vida dos cidadãos mais ágeis.

Além disso, o plano prevê um corte no número de órgãos consultivos e comitês assessores, bem como a redução de avaliações políticas. A justificativa é que a proliferação desses órgãos nas últimas décadas gerou trabalho desnecessário e dificultou a resolução de problemas sociais complexos. A ideia é concentrar esforços em estruturas mais enxutas e com maior capacidade de decisão.

Implicações e Perguntas em Aberto

A iniciativa holandesa, embora focada em eficiência, levanta importantes questionamentos sobre o futuro do emprego público e o papel da tecnologia. A exclusão de setores como a polícia e a defesa do plano de cortes sugere que há um reconhecimento de que nem todas as funções podem ser facilmente substituídas por IA. No entanto, a amplitude do corte planejado para outros setores pode gerar apreensão entre os funcionários públicos e debate sobre a qualidade do serviço prestado.

O sucesso deste plano dependerá da capacidade de implementação efetiva da IA e da real desburocratização. A Holanda, com sua tradição de inovação e gestão eficiente, pode ser um laboratório interessante para observar os limites e as possibilidades da inteligência artificial na administração pública. Resta saber se a busca por um governo "menor" e "mais eficiente" não comprometerá a capacidade do Estado de atender às necessidades complexas de seus cidadãos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España