O renomado investidor bilionário Howard Marks, cofundador e copresidente da Oaktree Capital Management, trouxe à tona um dos maiores dilemas do mercado de tecnologia atual: a dificuldade intrínseca em avaliar empresas focadas em inteligência artificial (IA). Para investidores de valor, como Marks, o método tradicional envolve projetar os lucros de uma companhia em um horizonte de cinco anos para determinar se seu valor atual é atrativo. No entanto, ele argumenta que essa abordagem se torna extremamente complexa quando aplicada a empresas de IA.
Marks exemplifica essa dificuldade com a Anthropic, desenvolvedora da IA Claude e uma das empresas que se preparam para um IPO histórico. "Podemos realmente nos iludir achando que sabemos o que ela fará daqui a cinco anos?", questionou Marks em recente entrevista à "Bloomberg: The China Show". A própria Anthropic, em seu prospecto de IPO, reconhece a necessidade de "reinventar constantemente" seu negócio e lançar novos produtos que "ofusquem o valor econômico dos existentes". A velocidade com que avanços como chatbots e agentes de codificação surgiram e se tornaram viáveis para trabalhos mais amplos e descobertas científicas em poucos anos ilustra a dinâmica volátil e imprevisível do setor.
O Desafio da Incerteza na IA
Em suas mais de seis décadas de experiência no mercado financeiro, Howard Marks afirma nunca ter encontrado um setor com as características da IA: sua "inscrutabilidade, novidade, velocidade de progresso, autonomia e imprevisibilidade". Essa natureza volátil e em constante reinvenção torna os modelos de valuation tradicionais, que dependem de projeções de longo prazo, quase obsoletos. A incerteza sobre quais produtos ou serviços dominarão o mercado em poucos anos, e qual o valor econômico que eles gerarão, impede uma análise de risco-retorno clara e previsível. A própria natureza da IA, que se autoaprimora e expande suas capacidades de forma autônoma, adiciona uma camada de complexidade que desafia as métricas financeiras convencionais.
Volatilidade e Cautela no Mercado de Tecnologia
Recentemente, o setor de IA tem mostrado sinais de volatilidade. Quedas em ações de gigantes como Alphabet e Amazon, atribuídas a preocupações com os altos gastos em IA, serviram como um alerta. Apesar de o índice Nasdaq 100, fortemente influenciado por empresas de tecnologia, ainda apresentar ganhos significativos no ano, esses "tropeços" recentes "estouraram um pouco a bolha de infalibilidade" em torno da IA, segundo Marks. Essa correção, embora pontual, é vista por muitos como um movimento saudável, incentivando investidores a controlar o entusiasmo e a adotar uma postura mais "pensativa" e "cética", como defende o próprio Marks.
A Visão de Longo Prazo e a Crítica à Hiperatividade
Diante desse cenário de incertezas e volatilidade, Howard Marks reitera a importância de uma estratégia de investimento de longo prazo, um princípio defendido por figuras como Warren Buffett. Em vez de focar em flutuações diárias de mercado, a recomendação é construir um portfólio diversificado de ativos com potencial de desempenho a longo prazo e mantê-los. Marks critica a "hiperatividade" no mundo dos investimentos, argumentando que não há recompensa para o movimento constante e reativo. A sabedoria de Buffett, que manteve posições em Coca-Cola e American Express por décadas, exemplifica essa filosofia. Outros investidores como Michael Burry, de "The Big Short", também têm alertado sobre a possibilidade de uma bolha no setor de IA, apontando para gastos excessivos e práticas contábeis agressivas como sinais de alerta.
Perguntas em Aberto e o Futuro do Investimento em IA
A questão que permanece é como o mercado encontrará formas de precificar empresas de IA de maneira eficaz e sustentável. Se os métodos tradicionais de valuation são insuficientes, quais novos modelos ou métricas surgirão para capturar o valor real e o potencial de crescimento dessas companhias? A capacidade de "reinventar o negócio" mencionada pela Anthropic é um indicativo de que a própria definição de valor em empresas de tecnologia pode estar em constante mutação. A cautela de investidores experientes como Marks e Buffett sugere que, apesar do fascínio pela IA, a prudência e a análise criteriosa continuarão sendo fundamentais para navegar neste novo e desafiador território de investimentos.
A leitura aqui é que, enquanto a IA promete revolucionar diversos setores, o mercado financeiro ainda busca um equilíbrio entre o otimismo com o potencial disruptivo e a necessidade de métricas sólidas para justificar valuations estratosféricos. A volatilidade recente pode ser apenas o começo de um período de ajustes e descobertas na forma como o capital é alocado para a próxima grande onda tecnológica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





