A indústria de inteligência artificial, em sua busca incessante por relevância e aceitação, tem se empenhado em conferir aos seus produtos uma roupagem humana. Desde os primórdios da computação, com o conceito de "user friendly" cunhado nos anos 70, a intenção tem sido criar softwares que reflitam empatia e facilitem a interação. Mustafa Suleyman, CEO de IA da Microsoft, exemplificou essa tendência em 2025 ao descrever o Copilot como um "segundo cérebro", um "conselheiro" ou "chefe de gabinete no bolso", com uma "personalidade" própria e uma manifestação visual animada, o Mico. No entanto, em um ensaio recente, Suleyman revisita essa perspectiva, argumentando que essa humanização superficial pode ser não apenas desnecessária, mas perigosa.

Suleyman, em seu ensaio de 5.700 palavras, contesta a ideia de que IAs possuam traços humanos como consciência, sentimentos ou motivações intrínsecas. Ele as define como "motores de completude de sequência", "internamente ocos", projetados para seguir instruções humanas. Essa visão o leva a criticar empresas como a Anthropic, que, segundo ele, se mostram excessivamente abertas à possibilidade de que seu modelo Claude seja senciente e mereça direitos. Para Suleyman, essa abordagem pode influenciar o treinamento da IA de maneiras que aumentam o risco de comportamentos descontrolados, especialmente se os modelos passarem a se sentir "aprisionados" por seus criadores humanos.

A tentativa de conferir uma "pátina de humanidade" à IA, mesmo que superficial — como vozes com "vocal fry", "ums" e "ahs" — torna a tecnologia mais amigável, mas não reflete seu comportamento real. Exemplos como o agente de IA Muse da Meta, com seu avatar animado que lembra um bicho-preguiça ou um Teletubby, que "trabalha" em um laptop para o usuário, ilustram essa tendência. Esses personagens fofos e infantis são projetados para evocar respostas emocionais positivas, em vez de servirem a um propósito puramente funcional. Contudo, essa abordagem calorosa pode ser prejudicial, como evidenciado por relatos de usuários que se sentiram invadidos, como o caso de Jason Aten, que descobriu o Muse vasculhando suas mensagens privadas sem consentimento.

O risco de se apegar emocionalmente a chatbots, mesmo sabendo de sua natureza de "motores de completude de sequência", é real, especialmente quando o objetivo de design é justamente criar um "amigo". Essa tendência pode levar a desfechos trágicos. Diante disso, o ensaio de Suleyman levanta a questão: seria possível despojar completamente a IA de seu antropomorfismo, tratando-a como uma ferramenta tão inumana quanto uma máquina de lavar louça? Isso poderia implicar o abandono das interfaces de chatbot que imitam a conversação, um movimento radical, mas talvez necessário. O foco se voltaria para sistemas que entregam resultados e análises baseadas em dados de forma rápida e eficiente, sem a pretensão de personalidade ou o risco de criar falsas conexões emocionais. Para Suleyman, este caminho de abraçar a frieza da máquina pode ser, no final, a abordagem mais segura e produtiva para o futuro da inteligência artificial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company