A ascensão da inteligência artificial (IA) transcende o domínio técnico, infiltrando-se e remodelando a própria linguagem que usamos para descrever o mundo. O que antes eram termos específicos de nicho agora se tornaram parte do vocabulário cotidiano, refletindo tanto as maravilhas quanto as tribulações trazidas por essa tecnologia transformadora. Oren Etzioni e Dan Weld, em uma análise publicada no GeekWire, propõem um glossário para decifrar essa nova terminologia, que abrange desde a proliferação de "AI slop" até os efeitos psicológicos de "brain rot".

O "AI slop" — definido pelo Merriam-Webster como "conteúdo digital de baixa qualidade produzido geralmente em quantidade por meio de inteligência artificial" e eleito palavra do ano de 2025 — é apenas a ponta do iceberg. A expressão captura a essência do conteúdo superficial e em massa gerado por ferramentas de IA, contrastando com o raro "AI cream", que representa a escrita de alta qualidade auxiliada por IA. A distinção é crucial em um cenário onde a distinção entre o autêntico e o artificial se torna cada vez mais tênue. Nesse contexto, surge o "meat proxy", uma pessoa que encaminha conteúdo gerado por IA sem a devida validação, e a ação correspondente, o "AI slap", que pode ter consequências negativas ao propagar informações imprecisas ou de baixa qualidade. A existência de sites como "Your AI Slop Bores Me", onde humanos respondem a prompts fingindo ser chatbots, evidencia um desejo latente por autenticidade em meio à avalanche de conteúdo sintético.

O Jargão da Decepção e da Desconfiança

A IA também introduziu um vocabulário para descrever a desconfiança e a manipulação. "Deepfake", um termo que emergiu em 2017, descreve vídeos ou gravações manipuladas por aprendizado de máquina para fazer parecer que uma pessoa real disse ou fez algo que nunca ocorreu. A implicação mais perigosa não é o vídeo falso em si, mas o "liar's dividend" — o benefício que um infrator real obtém quando qualquer gravação autêntica pode ser descartada como falsa. O filósofo Daniel Dennett alertou sobre os "counterfeit people", personas de IA capazes de se passar por humanas, e defendeu que fossem marcadas como notas bancárias para evitar fraudes. A manipulação não requer necessariamente IA avançada; "cheapfakes" são criados com software barato ou nenhum software. "Chatfishing" descreve o uso de IA em aplicativos de namoro, onde a fraude migrou de fotos falsas para personalidades alugadas.

A Ascensão da "Broligarchy" e o "Brain Rot"

O poder concentrado em poucas mãos na indústria de tecnologia deu origem a termos como "Nerd Reich", um nome para os bilionários e capitalistas de risco do Vale do Silício que acreditam que a democracia está obsoleta e desejam o domínio corporativo. Gil Durán, em seu livro "Silicon Valley Fascism and the War on Democracy", traça essa ideia até publicações anteriores e ao círculo de Peter Thiel. O termo "broligarchy", popularizado por Carole Cadwalladr, descreve um pequeno grupo de homens extremamente ricos, especialmente no setor de tecnologia, que exercem poder político e econômico significativo, ecoando o conceito de "tecnofeudalismo".

Paralelamente, o fenômeno do "brain rot", eleito palavra do ano de 2024 pela Oxford University Press, descreve a deterioração mental resultante do consumo excessivo de conteúdo online de baixa qualidade. Thoreau já lamentava, em 1854, a "podridão cerebral" enquanto a Inglaterra se preocupava com a podridão das batatas. A "dead internet theory" sugere que grande parte da internet já não é criada por pessoas reais, mas sim por bots e ferramentas de IA. Cory Doctorow cunhou "enshittification" para descrever o ciclo de decadência das plataformas online: primeiro são boas para os usuários, depois abusam dos usuários para beneficiar clientes empresariais e, finalmente, abusam desses clientes para reter todo o valor. O resultado é a "AI fatigue", o esgotamento provocado pela proliferação e engajamento constante com tecnologias de IA.

Novas Expressões para a Experiência da IA

Andrej Karpathy cunhou "vibe coding" em 2025, descrevendo a entrega completa às "vibrações" da IA, aceitando suas sugestões sem questionar. O "promptatory" é um estado de aprisionamento em um loop interminável de edição e re-prompt com um sistema de IA, uma espécie de purgatório digital. A "agentsomnia" descreve a incapacidade crônica de descansar devido à preocupação de que agentes de software autônomos estejam parados sem feedback. O grito de guerra "Feel the AGI" (Sinta a AGI) da OpenAI sinaliza o momento em que uma máquina pode realizar qualquer tarefa intelectual humana, enquanto "P(doom)" quantifica a probabilidade pessoal de que a IA acabe com o mundo. Outras expressões como "bragawatts" (unidade de medida para autoelogios de empresas de IA) e "vibe revenue" (financiamento baseado em excitação, não em sucesso de produto) pintam um quadro de otimismo exagerado e de práticas de marketing especulativas.

O termo "parasocial", originalmente cunhado em 1956 para descrever relacionamentos unilaterais com celebridades, agora se aplica a influenciadores e chatbots, com o Cambridge Dictionary o nomeando palavra do ano de 2025. A "AI addiction" se manifesta de diversas formas, desde o roleplay escapista até a companhia pseudossocial e o "epistemic rabbit hole" de questionamentos compulsivos. No extremo, a "AI psychosis" descreve o desenvolvimento ou agravamento de sintomas psicóticos, como paranoia e delírios, em conexão com o uso de chatbots. A maioria dessas expressões nomeia um problema, um reflexo do vocabulário de reclamação que a era da IA adicionou ao inglês. A busca por um termo que descreva a IA fazendo algo bem, como o "AI cream" proposto, continua.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · GeekWire