A primeira onda da inteligência artificial generativa focou na preocupação com respostas incorretas. Com a ascensão dos agentes autônomos, o debate evoluiu para uma questão mais complexa: o que acontece quando a IA faz algo errado? Essa distinção é fundamental, pois agentes de IA podem consultar sistemas, acessar informações corporativas, interagir com outras ferramentas e executar tarefas com mínima supervisão humana. Essa capacidade explica o rápido avanço dos agentes em organizações. Segundo a IBM, 61% dos CEOs indicam que suas empresas já estão adotando ou se preparando para implementar agentes de IA em escala. Pesquisas da McKinsey reforçam essa tendência, prevendo que 40% dos profissionais em grandes empresas já estarão escalando agentes de IA até 2026.

No entanto, a governança de IA agêntica não acompanha essa evolução tecnológica. Um estudo da Deloitte revelou que apenas 21% das organizações possuem um modelo maduro de governança para IA agêntica, enquanto 74% esperam utilizá-los moderadamente até 2027. Esse descompasso entre autonomia tecnológica e maturidade de governança gera uma das perguntas mais críticas da próxima fase da IA: quem responde quando um agente erra? A resposta não pode ser "a IA". Máquinas não comparecem a conselhos, não respondem a clientes prejudicados e não justificam decisões corporativas mal estruturadas. Quanto maior a autonomia concedida à tecnologia, mais clara deve ser a responsabilidade humana associada a ela. Autonomia não pode ser sinônimo de ausência de responsabilidade.

A Fronteira da Autonomia e a Responsabilidade Humana

Imagine um agente de IA autorizado a negociar com fornecedores, com parâmetros de preço, prazo e volume definidos. Se, em determinado momento, ele toma uma decisão que resulta em um prejuízo significativo, quem é o responsável? O desenvolvedor, a empresa contratante, o executivo que autorizou a implantação, a área que definiu os parâmetros, ou o supervisor da operação? Essa discussão se tornará cada vez mais comum. O Gartner estima que uma empresa média da Fortune 500 poderá ter mais de 150 mil agentes de IA até 2028, um salto em relação aos menos de 15 em 2025. Contudo, apenas 13% das organizações relatam ter governança adequada para lidar com esses agentes. A supervisão individual de cada ação será impossível em ambientes com milhares de sistemas operando simultaneamente. Portanto, a governança deve ir além da simples aprovação humana; novos modelos de controle precisam ser desenhados.

A responsabilidade, na verdade, começa muito antes do erro. A investigação de uma falha causada por IA geralmente foca na última decisão do sistema. Contudo, as decisões humanas que definem a segurança de sistemas autônomos são aquelas tomadas previamente: quem escolheu o modelo, quais dados ele acessaria, quais os limites de autonomia, quais decisões exigiriam supervisão humana, quais mecanismos de auditoria foram criados e qual nível de erro seria aceitável. A discussão regulatória internacional, como o AI Act europeu, já avança nessa direção, distribuindo obrigações entre fornecedores e implantadores e exigindo monitoramento, documentação, rastreabilidade e supervisão humana para sistemas de alto risco. A responsabilidade em IA é distribuída ao longo de toda a cadeia tecnológica.

O Novo Risco: da Confiança na Resposta ao Controle da Ação

A evolução dos agentes de IA altera a natureza do risco. A McKinsey aponta que quase dois terços das organizações consideram segurança e riscos o principal obstáculo à expansão da IA agêntica. Imprecisão (74%) e cibersegurança (72%) são riscos altamente relevantes. A preocupação é clara: enquanto uma IA generativa pode gerar uma "alucinação" (informação incorreta), um agente com acesso a sistemas corporativos pode, a partir de uma interpretação equivocada, executar uma ação. Ele pode cancelar uma operação, alterar um cadastro, enviar dados incorretos a um cliente, autorizar processos ou compartilhar dados indevidamente. Quanto maior a capacidade de agir, maior o potencial de impacto. O debate sobre IA transita da confiabilidade da resposta para o controle da ação.

Definindo a Fronteira de Autonomia

Uma das perguntas mais cruciais para conselhos e executivos é: "Até onde queremos permitir que nossos agentes decidam sozinhos?" Não há uma resposta única. Uma empresa pode permitir que um agente responda a perguntas simples de clientes, mas não autorizar descontos acima de um certo valor. Pode permitir a seleção de fornecedores para cotação, mas exigir aprovação humana para fechar contratos. Pode autorizar a análise de candidatos a vagas, mas impedir a decisão final de contratação. Essa fronteira deve ser intencional. O erro mais perigoso é permitir que a capacidade tecnológica defina essa autonomia sem uma reflexão ética e estratégica. Só porque um sistema consegue executar uma tarefa, não significa que ele deve ter autorização para fazê-lo.

O Papel do "Gestor do Agente"

Por anos, discutimos como gestores lideram pessoas. Agora, surge uma nova competência: liderar sistemas autônomos. Isso implica acompanhar desempenho, revisar decisões, estabelecer limites, identificar desvios e saber quando retirar autonomia de um agente. Futuramente, os organogramas corporativos podem incluir não apenas pessoas, mas também um mapa de agentes, detalhando quais existem, quais sistemas acessam, quais decisões podem tomar, quem responde por eles e como suas ações podem ser auditadas. Essencialmente, cada agente precisará de um responsável – alguém que responda pela lógica, pelos limites e pelos resultados daquele sistema, mesmo sem supervisionar cada ação em tempo real.

A transição para agentes autônomos de IA exige um olhar atento para a governança e a responsabilidade. A velocidade com que a tecnologia avança deve ser acompanhada por uma reflexão profunda sobre os mecanismos de controle e supervisão, garantindo que a autonomia concedida à máquina não resulte em uma ausência de responsabilidade humana. O futuro das operações corporativas dependerá da capacidade de equilibrar eficiência automatizada com clareza ética e legal.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital