A inteligência artificial deixou de ser uma promessa futurista para se tornar uma ferramenta indispensável nas campanhas políticas americanas. Dados recentes de financiamento de campanhas, compilados a partir de relatórios da Comissão Eleitoral Federal (FEC) e de quatro estados — Califórnia, Colorado, Massachusetts e Washington —, revelam que pelo menos US$ 17 milhões foram gastos em fornecedores de tecnologia de IA desde 2020. Essa quantia, embora possa parecer modesta em comparação com o orçamento total de uma campanha, sinaliza uma mudança fundamental na forma como as eleições são disputadas, com a IA se infiltrando em diversas facetas da comunicação e estratégia eleitoral.

O montante de US$ 17 milhões em gastos divulgados abrange 523 candidatos e comitês federais. A análise, que originalmente apareceu no The Guardian, aponta que a IA está rapidamente se tornando um componente essencial da política, apesar do silêncio dos próprios candidatos sobre o uso específico dessas tecnologias em suas campanhas. Essa discrição é compreensível, dado que uma pesquisa do Pew de setembro de 2025 indicou que mais de 70% dos americanos teriam uma visão negativa de um candidato que utilizasse IA para escrever discursos. O tema é sensível e está sendo monitorado de perto, especialmente por aqueles que estudam a influência da IA na democracia.

O Mercado de IA nas Campanhas: Gigantes e Especialistas

Entre os fornecedores de IA de uso geral, a OpenAI, criadora do ChatGPT, registrou gastos de cerca de US$ 50.000 por pelo menos 80 campanhas e comitês federais desde 2024. O gasto, ligeiramente inclinado para o lado Republicano, teve o Comitê Nacional Republicano como o maior comprador individual, com quase US$ 10.000 em despesas. Candidatos como Mike Lawler, John Kennedy e Bill Cassidy (Republicanos), e Ro Khanna e Ted Lieu (Democratas da Califórnia), aparecem entre os principais usuários. No entanto, a maioria dessas despesas é classificada como custos de escritório ou assinaturas de ferramentas de pesquisa, e não como serviços políticos diretos, em parte devido às políticas da OpenAI que proíbem certos usos políticos de seu ChatGPT.

Seu principal concorrente, a Anthropic, fabricante do Claude, também viu um rápido aumento no uso, mas com uma proporção diferente: aproximadamente 65 candidatos ou comitês pagaram à Anthropic em 2026, um salto de quase zero em anos anteriores, com uma proporção de quase dois Democratas para cada Republicano. Um destaque é o senador Republicano Tom Cotton, que relatou mais de US$ 4.000 em gastos com software da Anthropic. Outros usuários notáveis incluem o candidato independente ao Senado de Montana, Seth Bodnar, e os candidatos Democratas Jason Knapp e Mary Peltola. Curiosamente, apenas cerca de 12% das campanhas que utilizam essas ferramentas relatam gastos com ambos os fornecedores, sugerindo uma preferência partidária ou estratégica.

Ferramentas Especializadas e a Nova Fronteira da Comunicação

Além dos gigantes de IA de uso geral, há um mercado crescente de fornecedores especializados em aplicações políticas de IA. A AmplifAI, que oferece mensagens de texto automatizadas — uma evolução da tecnologia de robocalls —, foi um alvo dominante de gastos, acumulando US$ 4,7 milhões apenas no ciclo de 2022, sendo amplamente utilizada por candidatos Democratas como Mark Kelly, Joe Biden e Bernie Sanders. Embora o uso da AmplifAI pareça ter diminuído, a Daisychain emergiu como a nova solução Democrata para mensagens de texto impulsionadas por IA, arrecadando cerca de US$ 300.000 no ciclo de 2026, um aumento significativo em relação aos US$ 50.000 de 2024. O candidato Democrata ao Senado de Michigan, Abdul El-Sayed, é responsável por mais da metade dos gastos deste ano.

No lado Republicano, a Campaign Nucleus, associada ao ex-gerente de campanha de Trump, Brad Parscale, tem atraído investimentos de seis dígitos do Comitê Nacional Republicano e de PACs alinhados a Donald Trump. Essa ferramenta está substituindo o fornecedor tradicional de mensagens para Republicanos, Prompt.io, que, apesar de ter retido cerca de US$ 375.000 em 2026, vê seu uso diminuir. No entanto, o Prompt.io continua relevante, com o PAC A More Affordable California, patrocinado pela Uber, gastando mais de US$ 1 milhão em 2026.

O Que os Dados Não Revelam: A Ponta do Iceberg

Os gastos diretos de candidatos e comitês são apenas uma parte da história. A análise de quatro estados mostra um crescimento exponencial em gastos com IA em nível estadual, com cerca de dez vezes mais gastos em 2026 do que em todo o ano de 2024. Ferramentas como DonorAtlas, um sistema de pesquisa de prospectos com IA, ganham destaque. No entanto, o uso de ferramentas de criação de áudio e vídeo sintético, conhecidos como "deepfakes", parece ser mínimo nos relatórios de gastos diretos, com poucas campanhas reportando despesas com plataformas como ElevenLabs ou Midjourney. Isso contrasta com dados recentes do Wesleyan Media Project, que indicam que pelo menos 164 anúncios políticos neste ciclo incluíram mídia gerada por IA, apoiados por pelo menos US$ 80 milhões em gastos com publicidade.

Essa discrepância sugere que os relatórios de despesas de candidatos e comitês representam apenas a "ponta do iceberg". A maior parte do uso de IA em campanhas provavelmente ocorre através de consultores políticos, empresas de mídia e outros fornecedores contratados pelas campanhas, bem como por PACs e comitês independentes que não são obrigados a divulgar relatórios detalhados de despesas. Com a maior parte dos gastos de campanha concentrada nas semanas finais que antecedem novembro, o impacto total do uso de IA nas decisões dos eleitores ainda está por ser totalmente compreendido.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Schneier on Security