As campanhas eleitorais americanas de 2026 marcam a entrada consolidada da inteligência artificial (IA) no cenário político, com anúncios gerados por essa tecnologia aparecendo com frequência na televisão e nas redes sociais. Pesquisadores do Wesleyan Media Project, que estudam publicidade política desde 2010, rastrearam cerca de US$ 80 milhões em gastos em quase 170 anúncios únicos que utilizam IA. Os resultados revelaram um uso diversificado da tecnologia, que vai desde deepfakes hiper-realistas até aprimoramentos visuais sutis. Surpreendentemente, patrocinadores republicanos, tanto candidatos quanto grupos de interesse, mostraram-se significativamente mais propensos a empregar IA em comparação com seus pares democratas. Adicionalmente, a legislação estadual fragmentada resulta em muitos desses anúncios não informando o uso de IA, dificultando a identificação por parte do eleitorado.

A ascensão dos deepfakes e aprimoramentos visuais

O uso de IA generativa para criar deepfakes — vídeos sintéticos que mostram pessoas em situações que nunca ocorreram — tem sido uma fonte de preocupação para políticos e grupos de vigilância, com o potencial de enganar eleitores. A pesquisa identificou diversos anúncios contendo deepfakes de figuras políticas proeminentes como Donald Trump, Nancy Pelosi, Barack Obama, Kamala Harris e Alexandria Ocasio-Cortez. Ocasio-Cortez, em particular, tem sido um alvo frequente de anunciantes republicanos, aparecendo em pelo menos cinco anúncios. Exemplos notáveis incluem um candidato republicano ao Senado da Louisiana dirigindo um ônibus escolar com imigrantes indocumentados, um candidato republicano a governador da Carolina do Sul caminhando com drag queens, e um anúncio mostrando Liz Cheney, Mitt Romney e Mike Pence com forcados no gramado da Casa Branca. A tecnologia também foi usada para gerar multidões ou constituintes em outros anúncios, e para aprimorar elementos visuais, como em um anúncio de Chip Keating, candidato republicano a governador de Oklahoma, que incluiu um aviso de IA sem especificar o uso. A dificuldade em distinguir anúncios aprimorados por IA de produções pré-IA torna a tarefa de discernir falsidades ainda mais complexa para o público.

O abismo partidário no uso de IA

Os dados compilados indicam uma clara disparidade no emprego de IA em publicidade política. Candidatos e grupos republicanos, incluindo super PACs e organizações 501(c), foram responsáveis por 80% dos anúncios rastreados e por 83% dos gastos totais associados ao uso de IA. Uma possível explicação para essa dominância republicana reside em suas filosofias gerais em relação à regulamentação de campanhas. Tradicionalmente, os democratas tendem a adotar uma abordagem mais regulatória, favorecendo limites de gastos e exigências de divulgação. Em contraste, os republicanos geralmente se inclinam a uma filosofia de livre mercado. Essa diferença de mentalidade pode se refletir na adoção mais rápida e ampla da IA na publicidade política, um tema que gera apreensão entre os eleitores, com pesquisas mostrando amplo apoio a regulamentações, incluindo a proibição de conteúdo de IA com alegações enganosas sobre candidatos.

Transparência e a complexidade das divulgações

A regulamentação da IA na publicidade política nos EUA é dificultada por um mosaico de leis estaduais, o que significa que muitos anúncios não são obrigados a divulgar o uso da tecnologia. Essa falta de clareza na divulgação torna o rastreamento do uso de IA um desafio, levando a equipe de pesquisa a depender de cobertura da mídia e de codificadores estudantis treinados. Em 35 estados, apenas 31% dos anúncios rastreados revelaram o uso de ferramentas de IA, representando 22% dos gastos. A redação dos avisos variava significativamente, desde declarações explícitas como “Este vídeo foi manipulado ou gerado com inteligência artificial” até avisos mais satíricos como “Sátira política. Imagens geradas por IA não retratam eventos reais”. A pesquisa também observou que a existência de leis estaduais que exigem divulgação de IA tem pouca correlação com a presença real dessas divulgações nos anúncios. Em alguns casos, anunciantes omitem avisos mesmo quando exigido por lei, enquanto em outros, a divulgação ocorre voluntariamente, mesmo na ausência de obrigatoriedade legal. A aplicação das leis existentes e a definição de um formato de divulgação útil para os eleitores permanecem como os principais desafios.

Perguntas em aberto e o futuro da publicidade política

Diante desse cenário, permanecem questões cruciais sobre o futuro da publicidade política com IA. A eficácia das leis estaduais existentes em garantir transparência é questionável, dada a inconsistência na aplicação e na própria existência de regulamentações. A dificuldade em definir o que constitui um uso de IA que necessita de divulgação, e a velocidade com que a tecnologia evolui, criam um ambiente onde a desinformação pode prosperar. A questão central para os próximos ciclos eleitorais será como equilibrar a inovação tecnológica com a necessidade de um eleitorado informado e protegido contra manipulações. A evolução da legislação e a capacidade dos eleitores de discernir conteúdo real de sintético serão determinantes para a integridade do processo democrático nos Estados Unidos.

O cenário atual aponta para uma corrida armamentista tecnológica em campanhas, onde a capacidade de gerar conteúdo convincente e, por vezes, enganoso, pode se tornar um diferencial decisivo. A falta de regulamentação uniforme e a rápida adoção por parte de um dos espectros políticos levantam sérias dúvidas sobre a saúde do debate público e a confiança nas informações recebidas. A necessidade de maior clareza e responsabilidade na publicidade política mediada por IA é um chamado urgente para legisladores e para a sociedade civil.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune