A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma promessa futurista para se tornar uma ferramenta cada vez mais presente na administração pública brasileira. A pesquisa TIC Governo, do Cetic.br, revela que 31% das prefeituras já experimentam com IA generativa em seus processos internos. No entanto, essa rápida adoção expõe um dilema crucial: como garantir a segurança e a privacidade dos dados dos cidadãos diante de tecnologias que, por vezes, operam em ambientes externos e não controlados?

O cenário atual é marcado por uma dualidade preocupante. Por um lado, a IA oferece o potencial de otimizar serviços, agilizar a arrecadação e personalizar o atendimento ao cidadão. Por outro, a falta de infraestrutura adequada e de regulamentações claras pode levar à exposição de informações sensíveis, como dados de saúde, educação e finanças municipais. A pesquisa indica que apenas 10% das prefeituras implementaram ferramentas de IA com guias e manuais de uso para seus servidores, evidenciando uma lacuna na capacitação e na governança dessas tecnologias.

O Risco da Exposição de Dados

O principal ponto de atenção reside no uso de ferramentas de IA de terceiros, especialmente aquelas que operam em modelos de gratuidade ou pagamento direto pelo servidor. Ana Mees, head de Inteligência Artificial da IPM, empresa desenvolvedora da DARA, IA especializada para gestão pública, alerta que, nesses casos, a informação sai do ambiente controlado do órgão municipal e migra para os servidores do provedor. "Esses dados podem ficar armazenados por tempo indeterminado, ser revisados por funcionários do provedor e usados para treinar futuros modelos", explica Mees. Essa vulnerabilidade é particularmente crítica quando se trata de dados pessoais, que exigem o mais alto nível de proteção, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

A falta de controle sobre onde e como os dados são processados e armazenados abre margens para incidentes de segurança, vazamentos e uso indevido. A dependência de ferramentas externas, sem uma política clara de governança de dados, pode comprometer a confiança do cidadão nas instituições públicas e gerar passivos legais significativos para os municípios. A ausência de infraestrutura e regras bem definidas torna a proteção de dados um desafio constante.

IA Nativa: Uma Alternativa Segura

Como resposta a esses desafios, a tendência de desenvolvimento e adoção de Inteligência Artificial nativa em sistemas de administração pública ganha força. Essa abordagem propõe a integração da IA diretamente nos sistemas de gestão já existentes, garantindo que o acesso e o processamento dos dados ocorram dentro de um ambiente controlado e seguro. A utilização de permissões e credenciais específicas, baseada no princípio do menor privilégio, assegura que cada servidor tenha acesso apenas às informações estritamente necessárias para o exercício de suas funções. Um profissional da área de educação, por exemplo, não teria acesso a dados de saúde, a menos que sua função o exija e esteja devidamente autorizado.

Essa prática é endossada pelo Guia Unificado de IA, publicado pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI). O documento ressalta a importância de controles de acesso rigorosos e trilhas de auditoria robustas, capazes de registrar detalhadamente quem acessou qual informação e em que momento. A IA nativa, ao operar sob essas diretrizes, não só protege os dados, mas também oferece um nível de transparência e rastreabilidade essencial para a boa governança.

Benefícios da Integração e Impacto no Brasil

A integração da IA aos sistemas de gestão municipal traz um benefício adicional: a capacidade de cruzar dados de diversas áreas para embasar decisões mais complexas e eficazes. Uma IA voltada à prevenção da evasão escolar, por exemplo, pode analisar a frequência do aluno, seu desempenho acadêmico, a distância até a escola e informações da assistência social. A DARA, da IPM, exemplifica essa capacidade ao cruzar dados para identificar estudantes em risco de abandono e subsidiar estratégias de combate ao problema, com o modelo sendo treinado e validado continuamente para esse cenário específico.

Um caso prático notável ocorreu em Cascavel (PR), onde a integração da assistente virtual com o sistema de gestão simplificou o processo de pagamento do IPTU. Com a DARA em operação, o cidadão passou a emitir o boleto ou gerar o Pix em poucos cliques, consultando diretamente a base de dados do município. Essa agilidade resultou em um aumento de 20% na arrecadação antecipada do imposto em 2025, superando a estimativa inicial da prefeitura. A iniciativa demonstra o potencial da IA, quando bem implementada, para melhorar a eficiência da gestão pública e a experiência do cidadão.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Gestão Municipal

Apesar dos avanços e das soluções promissoras, algumas questões permanecem em aberto. A democratização do acesso a ferramentas de IA seguras e integradas ainda é um desafio para muitos municípios, especialmente os de menor porte, que podem carecer de recursos financeiros e técnicos para implementar tais sistemas. A capacitação contínua dos servidores públicos para lidar com essas novas tecnologias e a evolução das regulamentações para acompanhar o ritmo da inovação também são pontos de atenção.

Será fundamental observar como os municípios brasileiros continuarão a equilibrar a busca por eficiência e inovação com a responsabilidade inalienável de proteger os dados de seus cidadãos. A adoção de IA na gestão pública é um caminho sem volta, mas seu sucesso dependerá da capacidade de construir um ecossistema onde tecnologia e segurança caminhem lado a lado, garantindo que os benefícios da inteligência artificial sejam acessíveis a todos, sem comprometer a privacidade e a confiança.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside