O comércio global de mercadorias está experimentando um impulso surpreendente, com a Organização Mundial do Comércio (OMC) praticamente dobrando sua projeção de crescimento para este ano, de 1,9% para 3,9%. Para 2027, a expectativa também foi elevada, de 2,6% para 4,1%. Esse otimismo, divulgado no relatório Perspectivas e Estatísticas do Comércio Global, é amplamente atribuído ao frenesi de investimentos em data centers, impulsionados pela rápida expansão da inteligência artificial (IA). No entanto, a diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, em entrevista a jornalistas em Genebra, ressaltou que esse crescimento, embora bem-vindo em um cenário de tensões geopolíticas, está mascarando desafios estruturais profundos que o sistema multilateral de comércio enfrenta, os maiores em seus 80 anos de existência.
O Efeito IA no Comércio Global
O relatório da OMC aponta que os bens essenciais para a infraestrutura de IA — como servidores, semicondutores e placas de memória — foram os grandes responsáveis por esse desempenho. Esses produtos representaram 47% do crescimento do comércio global de mercadorias no primeiro semestre do ano, com um aumento de 67% em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse avanço superou as expectativas, especialmente considerando as turbulências que marcaram o início do ano, como os conflitos no Mar Negro e no Estreito de Ormuz, que impactaram o comércio de petróleo. A resiliência do comércio de commodities, em parte devido a fornecedores alternativos como o Brasil, e o boom tecnológico criaram um cenário de crescimento que, superficialmente, alivia as preocupações com tarifas e guerras comerciais. No entanto, a análise da OMC sugere que essa recuperação pode ser mais setorial e menos distribuída do que os números agregados indicam.
Concentração e Sustentabilidade: Os Pontos Cegos da IA
Apesar do otimismo gerado pelos dados, Okonjo-Iweala alertou para dois problemas centrais: a concentração geográfica dos benefícios e a sustentabilidade do atual modelo de investimento. A diretora-geral observou que os ganhos provenientes do comércio de IA estão concentrados em poucas regiões, notadamente América do Norte (principalmente os Estados Unidos) e Leste da Ásia. Isso significa que grande parte do mundo não está participando plenamente dos benefícios desse boom tecnológico. A questão, portanto, não é apenas celebrar o crescimento, mas sim torná-lo mais inclusivo e equitativo. Além disso, a sustentabilidade a longo prazo dos investimentos maciços em data centers e infraestrutura de IA é um ponto de interrogação, levantando dúvidas sobre a longevidade desse motor de crescimento comercial.
A OMC em Xeque e o Futuro do Multilateralismo
As preocupações de Okonjo-Iweala ganham peso em um momento delicado para a própria OMC. Desde o governo Trump, os Estados Unidos têm bloqueado a nomeação de juízes para o Órgão de Apelação, paralisando a instância máxima de resolução de disputas comerciais da organização. Essa paralisação, combinada com políticas protecionistas e um cenário geopolítico cada vez mais complexo, coloca em xeque a eficácia e a relevância do sistema multilateral de comércio. Embora a OMC lute para reafirmar seu papel, com estudos que apontam para perdas significativas no PIB global caso acordos bilaterais prevaleçam sobre o multilateralismo, o atual crescimento impulsionado pela IA pode, paradoxalmente, adiar a urgência de reformas necessárias. A expectativa é que a análise mais aprofundada dos dados da OMC revele a extensão dessas disparidades e a fragilidade subjacente que o boom da IA tenta disfarçar.
Perguntas em Aberto para o Comércio do Futuro
O cenário atual levanta questões cruciais sobre o futuro do comércio global. Como garantir que os benefícios da revolução da IA sejam distribuídos de forma mais ampla entre as nações? Qual o impacto a longo prazo da concentração de poder tecnológico e comercial em poucas mãos? E, talvez o mais importante, como o sistema multilateral de comércio pode se adaptar e se fortalecer diante dessas novas dinâmicas e das persistentes tensões geopolíticas? A diretora-geral da OMC sinaliza que o crescimento atual é um alívio temporário, mas a verdadeira tarefa reside em construir um sistema comercial mais robusto, inclusivo e resiliente para as próximas décadas, superando as fragilidades que a própria alta do comércio de IA está, ironicamente, evidenciando.
O boom de investimentos em data centers, impulsionado pela inteligência artificial, está elevando as projeções de crescimento do comércio global. Contudo, a diretora-geral da OMC alerta que essa alta mascara desafios estruturais e a concentração de benefícios em poucas regiões, levantando questões sobre a inclusão e a sustentabilidade do sistema multilateral de comércio em um cenário de crescentes tensões geopolíticas e paralisação de órgãos chave da organização.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





