Lideranças corporativas na América Latina demonstram um otimismo notável em relação à inteligência artificial (IA), mas essa percepção contrasta com a realidade prática de suas operações. Um relatório da McKinsey de 2025 indica que cerca de 20% dos líderes de operações na região se declaram "muito preparados" para adotar a IA, superando a média global de 14%. No entanto, a implementação efetiva em escala real é significativamente menor, com apenas 7% das empresas latino-americanas alcançando esse patamar, comparado a 11% globalmente. Um estudo da Deloitte de 2026 reforça essa discrepância, apontando que 37% das empresas operam em um nível superficial, investindo recursos sem promover mudanças reais em seus processos.
Essa falha de alinhamento resulta em um fenômeno de "otimização marginal", onde o capital é direcionado para a automação de tarefas isoladas ou substituição de maquinário, negligenciando as fundações de uma verdadeira transformação. O erro estratégico reside em priorizar a infraestrutura física em detrimento da capacitação e da governança de dados. Essa lógica invertida é comparável a um time de futebol que, precisando de criatividade, contrata apenas zagueiros.
O Fator Humano Ignorado na Implementação da IA
Uma parte expressiva do descompasso entre o investimento em tecnologia e o retorno financeiro decorre da negligência com o fator humano. Apenas 35% dos Chief-Operating Officers (COOs) latino-americanos consideram a requalificação da força de trabalho um desafio crítico, enquanto globalmente esse número atinge 49%. Essa omissão ignora uma crise silenciosa de retenção, especialmente entre profissionais mais jovens, que rejeitam ambientes de trabalho rígidos e analógicos. Consequentemente, apenas 17% dos executivos na região afirmam ter capturado o retorno financeiro esperado sobre seus aportes em IA, segundo pesquisa da McKinsey.
Para superar essa inércia, organizações de alto desempenho demonstram que o diferencial competitivo está em fechar a distância entre o "acesso" a ferramentas e sua efetiva "ativação" no cotidiano. Pesquisas da McKinsey indicam que esses "high performers" são três vezes mais propensos a redesenhar fundamentalmente seus fluxos de trabalho. Isso implica a transição de estruturas burocráticas para modelos de descentralização de controle, mantendo a governança de dados centralizada — um redesenho que não significa perder o controle, mas sim definir onde ele é mais necessário.
A Fronteira Tecnológica Irregular e a Rendição Cognitiva
À medida que os sistemas corporativos evoluem, o desafio para as lideranças migra da camada técnica para a do julgamento e da governança. Essa mudança coincide com uma transformação demográfica acelerada na América Latina, onde mais de um quarto da população terá 60 anos ou mais nos próximos 30 anos. Empresas de vanguarda começam a reconhecer a senioridade como uma variável estratégica para mitigar riscos da IA.
Um estudo publicado na Organization Science (2026) conceitua a "Fronteira Tecnológica Irregular". Para tarefas dentro da capacidade óbvia da máquina, os ganhos de produtividade são inegáveis. Contudo, em problemas complexos que exigem a conciliação de dados quantitativos com pistas qualitativas sutis, a acurácia dos operadores cai drasticamente. Esse fenômeno, batizado de "rendição cognitiva", ocorre quando o profissional abdica do julgamento crítico, seduzido pelo polimento estatístico e pela arquitetura persuasiva do output da IA.
Oportunidades de Reskilling e Governança Estratégica
É precisamente nessa lacuna que reside a oportunidade de requalificação (reskilling) da força de trabalho sênior. O repertório tácito acumulado em décadas de operação e o hábito de confrontar a resposta da máquina com a experiência prática podem ser cruciais. A hipótese é que profissionais com vasta vivência, independentemente da idade, podem atuar como um contraponto vital à rendição cognitiva, garantindo que a IA sirva como uma ferramenta de aprimoramento, e não de substituição do julgamento humano.
A transição para uma IA verdadeiramente eficaz na América Latina exige um olhar estratégico que vá além da aquisição de tecnologia. É fundamental investir na adaptação dos processos organizacionais e, crucialmente, na capacitação e requalificação da força de trabalho. Sem essa abordagem integrada, os investimentos em IA correm o risco de se tornarem meros custos, sem a geração do valor prometido.
Perguntas em Aberto e o Futuro da IA na Região
O descompasso entre a percepção e a prática na adoção da IA na América Latina levanta questões importantes sobre a capacidade das empresas de se adaptarem às rápidas mudanças tecnológicas. A falta de foco no capital humano e na reestruturação de processos sugere um modelo de adoção reativo, em vez de proativo. Será que as empresas latino-americanas conseguirão reverter essa tendência e transformar o otimismo em resultados tangíveis?
A trajetória futura dependerá da habilidade das lideranças em reconhecer que a IA não é apenas uma ferramenta tecnológica, mas um catalisador de mudanças organizacionais profundas. A integração bem-sucedida exigirá uma governança clara, investimento contínuo em pessoas e uma redefinição dos modelos operacionais para que a inteligência artificial complemente, e não substitua, a capacidade humana de julgamento crítico e inovação.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





