A cibersegurança, antes vista como um centro de custo ou uma barreira à inovação, está em plena transformação. Impulsionada pela inteligência artificial (IA), a disciplina precisa urgentemente alinhar sua linguagem e suas práticas com a de negócios. O objetivo é claro: transformar a gestão de riscos em decisões estratégicas que definem produtos, investimentos e a própria sobrevivência da organização. A IA, ao ampliar a capacidade de identificar ameaças, correlacionar dados e responder a incidentes, democratiza recursos tecnológicos. Contudo, essa democratização também pode criar novas vulnerabilidades se não for acompanhada por uma governança robusta. Para os líderes de cibersegurança, a missão é garantir que a segurança não seja um adendo pós-desenvolvimento, mas um componente intrínseco desde a concepção de qualquer iniciativa.
Risco em Linguagem de Negócios
Paulo Condutta, CISO Advisor, destaca que essa mudança é particularmente crítica no setor financeiro, onde inovação, regulação e proteção de ativos são interdependentes. A responsabilidade das instituições sobre recursos e informações dos clientes força a construção de estruturas de segurança mais maduras. Ao mesmo tempo, a digitalização expande a superfície de ataque. O executivo enfatiza que o desafio não é impedir o uso de novas tecnologias, mas viabilizar sua adoção segura, sem aumentar descontroladamente a exposição das organizações. "É uma forma que a gente tem de ser um viabilizador dessas ações de forma segura, sem ser uma trava, justamente para que possa ter essa evolução", afirma. A meta é que a segurança deixe de ser um obstáculo para se tornar um facilitador estratégico, permitindo que a inovação ocorra sem comprometer a integridade e a confidencialidade dos dados.
Governança na Era da IA Generativa
A popularização da IA generativa e de práticas como o "vibe coding" ampliou a capacidade de profissionais fora das áreas tradicionais de TI criarem automações e soluções. Esse fenômeno, embora acelerado pela IA, tem raízes em práticas anteriores de automação por áreas de negócio. A IA, porém, elevou a escala e a velocidade desse processo. Condutta alerta que, sem governança adequada, essa autonomia pode levar a desvios e aumentar riscos de exposição de informações. "O advento da IA, do vibe coding e de outras ações amplificou esse processo, que também precisa ser amplificado no quesito de governança para que a gente consiga construir um arcabouço de proteção para aquela informação", explica. Estratégias como ambientes de "sandbox" oferecem um espaço seguro para experimentação, permitindo que a inovação floresça sem expor imediatamente toda a operação a riscos desconhecidos.
Defesa 24x7 Contra Fraudes
Se a IA apresenta desafios de governança, ela também oferece soluções para um problema estrutural da cibersegurança e antifraude: a assimetria entre a velocidade dos ataques e a capacidade humana de monitoramento contínuo. Os fraudadores operam 24 horas por dia, 7 dias por semana, e podem mirar períodos de menor capacidade humana de resposta. Manter equipes de segurança e antifraude em tempo integral pode ser economicamente inviável. A IA, ao conectar diferentes bases de dados (segurança, antifraude, prevenção à lavagem de dinheiro), permite correlacionar eventos e identificar sinais sutis que poderiam passar despercebidos. "Quando a gente começa a ver uma jornada e correlaciona isso com o uso da IA, eu vejo o filme como um todo. E esse filme é 24 por 7. Eu consigo tomar ações sem ter um humano dentro da jogada", detalha Condutta. A automação, portanto, não substitui especialistas, mas reduz lacunas temporais e permite uma análise conjunta de múltiplos sinais, otimizando a defesa.
Segurança Integrada ao Ciclo de Vida do Produto
A capacidade de resposta aprimorada pela IA resolve apenas uma parte do desafio. Uma estratégia de cibersegurança verdadeiramente madura começa antes mesmo de uma aplicação ou produto ser lançado ao mercado. A integração da segurança desde as fases iniciais de desenvolvimento, conhecida como "security by design", é fundamental. Isso implica que os riscos de segurança sejam avaliados e mitigados em paralelo com o desenvolvimento das funcionalidades e a definição do modelo de negócio. A linguagem comum entre cibersegurança e negócios é essencial para que as decisões de investimento e priorização considerem adequadamente os riscos cibernéticos. Ignorar essa integração pode levar a custos de correção muito maiores no futuro e a vulnerabilidades que comprometem a confiança do cliente e a reputação da empresa. A evolução contínua da IA e das ameaças exige uma adaptação constante, onde a colaboração entre equipes técnicas e de negócios é a chave para uma estratégia de segurança eficaz e resiliente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





