A recente Carta 130 da Dynamo, intitulada "O Tácito do Tempo", lança um olhar crítico sobre o avanço da inteligência artificial generativa, que atingiu 100 milhões de usuários em apenas dois meses, um feito sem precedentes se comparado à internet ou ao celular. Em contrapartida, a gestora alerta que investidores tendem a fugir de tudo o que a IA pode facilmente replicar. A essência do argumento reside na distinção entre negócios de alta tecnologia e aqueles que se sustentam em confiança, hábito e conhecimento tácito. Negócios relacionais, muitas vezes com pouca sofisticação tecnológica aparente, constroem sua força em redes estabelecidas ao longo de décadas. Essa base, embora difícil de replicar, é também frágil diante de abordagens mais modernas, baseadas em playbooks e dashboards que não capturam a complexidade humana e relacional. O conhecimento nessas áreas não é codificado em algoritmos, mas reside nas mãos de quem executa e na palavra de quem vende, características intrínsecas ao mercado de alta relojoaria.
O valor da escassez e do toque humano
O mercado de alta relojoaria exemplifica perfeitamente essa dinâmica. Na oferta, as manufaturas produzem um número limitado de peças anualmente, com acabamento manual que por natureza não escala. Na distribuição, a alocação de modelos disputados frequentemente depende da relação construída com a marca ou com revendedores autorizados. No mercado secundário, a compra e venda de relógios de luxo baseiam-se fundamentalmente na confiança no vendedor, na autenticidade da peça, na documentação que a acompanha e na história que ela carrega. É o "aperto de mão, o olho no olho, o calor humano", como descreve a Dynamo. Essa característica contrasta radicalmente com a eficiência e a escalabilidade prometidas pela IA, que, embora revolucionárias em muitos setores, encontram limites onde a confiança e a percepção de valor são construídas ao longo do tempo e através de interações humanas.
'Passion Assets' como pilar patrimonial
Paralelamente, um guia recente do Goldman Sachs, intitulado "Beyond the Sparkle", assinado pela área de estratégia de arte e colecionáveis de seu family office, posiciona relógios e joias de luxo ao lado de arte, vinhos, bolsas e carros clássicos, categorizando-os como "passion assets". O banco recomenda que esses itens sejam incorporados ao planejamento patrimonial das famílias. O mercado secundário de relógios de luxo, após um pico especulativo em 2022, passou por um período de correção e agora demonstra um crescimento saudável, com valorização de 11% desde meados de 2025, segundo o Knight Frank Luxury Investment Index. Essa recuperação é impulsionada por peças com fundamentos sólidos, indicando uma maturação da classe de ativos onde o prêmio vai para quem entende e sabe escolher. O Goldman Sachs enfatiza que, para esses ativos, "marca não basta". A avaliação de valor é feita peça a peça, considerando raridade, significado histórico, proveniência, artesanato, estado de conservação com componentes originais e autenticidade comprovada por documentação confiável e especialistas. Esses critérios funcionam como um filtro severo, pois a maioria dos itens comercializados como luxo não os atende.
Gestão patrimonial e particularidades do colecionismo
O guia do Goldman Sachs também aborda a gestão patrimonial desses ativos, recomendando inventários organizados, guarda de toda a documentação original (caixa, nota fiscal, recibos), avaliações periódicas e seguros específicos, já que apólices residenciais padrão raramente cobrem o valor integral. Um cuidado crucial, especialmente para modelos antigos, é a preservação de peças originais durante revisões, pois sua substituição sem consentimento pode depreciar o valor da peça. A sucessão patrimonial também é contemplada, com a sugestão de consultar herdeiros e deixar instruções claras sobre especialistas a serem contatados para venda. O mercado de crédito já reconhece o valor desses ativos, com empresas como a The Treasury, de Miami, oferecendo empréstimos garantidos por relógios de luxo. No Brasil, o mercado secundário de relógios também se profissionalizou, com revendedores que oferecem curadoria e autenticação, e o surgimento de marcas nacionais de relógios mecânicos artesanais. A convergência entre a análise da Dynamo e a do Goldman Sachs sugere que, em um cenário onde a IA reduz o custo marginal de tudo o que é digital e replicável, o que não escala — como um relógio que leva meses para ser montado por uma pessoa — adquire um novo peso no portfólio.
O futuro da escassez em um mundo digital
A relojoaria já enfrentou um choque tecnológico similar com a chegada do quartzo nos anos 1970, mas ressurgiu mais forte ao focar em artesania e significado, em vez de competir apenas em precisão. A inteligência artificial, embora capaz de automatizar e otimizar inúmeros processos, não pode replicar a confiança, o conhecimento tácito e a escassez que definem o valor de muitos bens colecionáveis e negócios relacionais. O choque tecnológico, neste contexto, pode atuar como uma disrupção ao contrário, valorizando o que é intrinsecamente humano e limitado. A leitura aqui é que o futuro não reside apenas na inovação digital, mas também na revalorização do que a IA não pode produzir: a autenticidade, a história e as conexões humanas que sustentam o valor a longo prazo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





