A empresa de engenharia basca IDOM iniciou uma nova fase de testes com o Marmok A-5, uma boia de 42 metros projetada para converter a força das ondas em eletricidade. O dispositivo foi posicionado em mar aberto frente à costa de Armintza, no País Basco, marcando um retorno estratégico após a coleta de dados críticos durante três invernos rigorosos entre 2016 e 2019. Segundo informações divulgadas pela plataforma EuropeWave, o equipamento atua como um laboratório de engenharia avançada em ambiente real.
O projeto não representa apenas um exercício acadêmico, mas uma tentativa de consolidar a energia undimotriz como uma alternativa escalável ao mix energético global. A tese central da IDOM é que, ao dominar a extração de energia em condições marítimas extremas sem incorrer em custos operacionais proibitivos, a tecnologia pode finalmente transitar da fase de prototipagem para a viabilidade comercial, um desafio que tem limitado o setor por décadas.
A mecânica da coluna de água oscilante
O coração da tecnologia Marmok é o sistema de coluna de água oscilante (OWC, na sigla em inglês). O dispositivo funciona como uma boia com um cilindro central que interage diretamente com o movimento das ondas. À medida que a coluna de água sobe e desce, o ar interno é comprimido e expandido, forçando a passagem por uma turbina que gera eletricidade. Esse fluxo é então transmitido para a rede elétrica através de cabos submarinos.
Para esta nova campanha, a IDOM introduziu melhorias significativas focadas na eficiência e na redução de riscos operacionais. O sistema agora conta com uma turbina de pás controláveis, um sistema de gestão inteligente com baterias embarcadas e um método de ancoragem simplificado. O redesenho da ancoragem foi uma resposta direta aos custos elevados e aos riscos associados à intervenção de mergulhadores em operações anteriores, buscando automatizar processos críticos.
O desafio da competitividade econômica
O principal obstáculo para a energia das ondas nunca foi a disponibilidade do recurso, que é vasto e constante, mas sim o custo de extração. Patxi Etxaniz, engenheiro de ondas da IDOM, destaca que o sucesso depende de tornar o processo rentável, competindo com outras fontes renováveis já consolidadas, como a eólica offshore e a solar. A corrida tecnológica envolve cerca de uma dúzia de players globais, incluindo empresas suecas, escocesas e asiáticas que operam de forma discreta.
A integração com a plataforma HarshLab, um laboratório flutuante vinculado às infraestruturas de BiMEP, permite que a IDOM monitore o desempenho do sistema em tempo real e transmita a energia gerada com maior segurança. Essa infraestrutura é fundamental para validar a durabilidade dos componentes sob estresse constante, um ponto de falha comum em projetos de energia oceânica que enfrentam a corrosão e a força das correntes marítimas.
Implicações para o setor de renováveis
A transição do Marmok de um protótipo de laboratório para um dispositivo pré-comercial reflete um amadurecimento do ecossistema de inovação basco. A trajetória, que começou em 2012 no Centro de Experiências Hidrodinâmicas de El Pardo, demonstra que o desenvolvimento de infraestruturas energéticas de vanguarda exige paciência institucional e financiamento contínuo. Reguladores e investidores observam o projeto como um teste de resiliência para a tecnologia undimotriz na Europa.
Para o mercado brasileiro, que possui uma extensa costa e um potencial inexplorado para energias marinhas, o progresso da IDOM serve como referência de engenharia. Embora as condições do Cantábrico sejam distintas das águas tropicais, a busca por sistemas de ancoragem e turbinas mais simples oferece um precedente técnico valioso. O sucesso ou fracasso desta campanha irá definir as próximas rodadas de investimento para o setor.
Perspectivas e incertezas
O que permanece incerto é o cronograma para uma escala comercial plena. A viabilidade depende não apenas da eficiência da turbina, mas da capacidade de reduzir drasticamente os custos de manutenção a longo prazo. A equipe da IDOM utilizará os dados coletados nos próximos meses para calibrar as projeções financeiras e definir o desenho da próxima geração do dispositivo.
O setor de energia renovável continuará monitorando a performance do Marmok A-5, especialmente em relação à sua capacidade de sobreviver a tempestades severas. Se os novos sistemas de controle inteligente demonstrarem eficácia, a energia das ondas pode deixar de ser considerada uma promessa distante para se tornar uma alternativa real no portfólio de descarbonização.
A eficácia dessa tecnologia em condições reais de mercado ainda será testada, mas os avanços na automação e no controle inteligente sugerem que a engenharia oceânica está entrando em uma fase de maior previsibilidade operacional. Resta saber se o custo final da eletricidade gerada será competitivo o suficiente para atrair o capital necessário para a expansão em larga escala.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





