A rápida expansão da inteligência artificial (IA) no ambiente corporativo traz consigo um leque de oportunidades para otimizar processos e aumentar a produtividade. No entanto, essa adoção acelerada também expõe as empresas a novos e complexos riscos, que vão desde o vazamento de dados sensíveis até interrupções operacionais críticas. O iFood, em sua estratégia "AI First", tem direcionado esforços para reforçar a governança em torno do uso dessas tecnologias, buscando um equilíbrio entre inovação e segurança.

Mayara Navarro Guerrini, Information Security and Technology Risk Manager no iFood, destacou em entrevista que a avaliação da IA deve ir além da eficiência operacional. É crucial considerar os impactos financeiros, reputacionais e regulatórios que uma implementação descuidada pode acarretar. A executiva ressalta a importância de uma colaboração estreita entre as áreas de segurança, riscos e negócios para navegar a velocidade com que novas aplicações de IA são incorporadas às operações. A preocupação central é garantir que a tecnologia, embora produtiva, gere valor tangível e não se torne um passivo.

Produtividade e Retorno Financeiro: Uma Análise Crítica

A distinção entre ganhos de produtividade percebidos e resultados financeiros concretos é um ponto nevrálgico na adoção de IA. Um levantamento da McKinsey, citado por Guerrini, revela que enquanto 80% dos executivos identificam melhorias de produtividade, apenas 37% observam um aumento no lucro operacional. Essa discrepância sublinha a necessidade de estabelecer métricas claras e indicadores de desempenho que demonstrem o valor real das iniciativas de IA antes de escalar investimentos. A decisão de implementar ou expandir o uso da tecnologia não pode se basear unicamente na expectativa de eficiência, mas deve ponderar custos de implementação, riscos inerentes e os objetivos de negócio a serem alcançados. A abordagem varia significativamente entre organizações: algumas restringem o uso por receios de segurança, enquanto outras promovem uma adoção mais ampla, exigindo estratégias de controle distintas para cada cenário.

Ferramentas Não Homologadas: O Vetor do Vazamento de Dados

Um dos desafios mais prementes reside no uso de ferramentas pessoais de IA por funcionários dentro do ambiente corporativo. Estudo da McKinsey aponta que tal comportamento ocorre em 90% das empresas, elevando o risco de compartilhamento de informações confidenciais em plataformas não autorizadas. O envio de bases de clientes para ferramentas públicas de IA, por exemplo, pode expor dados sensíveis, gerando sérias consequências financeiras e reputacionais. Guerrini alerta que o risco de vazamento de dados aumenta consideravelmente quando funcionários utilizam plataformas não homologadas pela empresa. A complexidade se agrava em organizações com estruturas descentralizadas e processos de inovação ágeis, onde manter um inventário atualizado das aplicações em uso é um desafio constante. Isso também eleva a importância da gestão de riscos de terceiros, dado que soluções de IA frequentemente envolvem fornecedores e plataformas externas.

IA Agêntica: Controle de Acessos e Permissões

Com o avanço da IA agêntica — sistemas capazes de realizar ações de forma autônoma —, as preocupações de segurança expandem-se para além do tratamento da informação e englobam as ações que esses sistemas podem executar. A criação de agentes de IA que acessam ambientes corporativos demanda atenção redobrada às permissões concedidas e às potenciais falhas. Guerrini questiona: "O que ele pode acessar?". Um agente com permissões inadequadas pode comprometer processos críticos e levar à indisponibilidade de serviços, aumentando o risco de interrupções operacionais. Portanto, a implementação dessas soluções exige a definição de limites de atuação, controles de acesso rigorosos e mecanismos robustos para mitigar a exposição dos sistemas corporativos.

Estratégia AI First com Mapeamento de Riscos no iFood

No iFood, a estratégia "AI First" é complementada por um mapeamento de riscos e pela definição de controles para monitorar a utilização da inteligência artificial. O objetivo é assegurar que as iniciativas estejam alinhadas ao apetite de risco da companhia, permitindo a evolução das aplicações sem comprometer requisitos essenciais de segurança. "A gente faz esse mapeamento de riscos e controles justamente para conseguir algo que esteja dentro do apetite da empresa, que seja factível e necessário", explica Guerrini. A companhia também investe em soluções internas, como a ferramenta de IA Tocan, que visa facilitar a adoção controlada e segura da tecnologia, alinhando-a às necessidades e aos limites de risco da organização.

A governança de IA é um campo em constante evolução, e a abordagem do iFood reflete a necessidade de vigilância e adaptação contínuas para extrair o máximo benefício da tecnologia, minimizando seus riscos inerentes. O futuro exigirá uma integração ainda maior entre as equipes de tecnologia, segurança, negócios e gestão de riscos para garantir que a inteligência artificial seja uma aliada confiável e segura.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside