O mercado brasileiro de luxo atravessa um processo de descentralização geográfica, deixando de ser um fenômeno restrito aos eixos tradicionais de Rio de Janeiro e São Paulo. A avaliação, apresentada por Carlos Jereissati, membro do conselho da Iguatemi (IGTI11), durante o 19º Congresso da Abrasce, aponta que o crescimento econômico em capitais regionais e cidades do interior criou um terreno fértil para a expansão de operações premium.

Segundo o executivo, o Brasil atingiu um patamar de maturação onde mercados anteriormente considerados periféricos agora possuem densidade econômica suficiente para sustentar operações de alto valor agregado. Essa transição exige que os grandes operadores de shoppings adotem uma postura mais audaciosa, testando novos territórios e abandonando a inércia dos modelos de negócios consolidados em metrópoles globais.

A nova geografia do consumo de luxo

A tese de Jereissati sugere que o país vive um momento de redistribuição de renda e oportunidades, onde a riqueza não está mais concentrada apenas na ponta do litoral. Esse movimento é sustentado pelo fortalecimento de polos regionais que, impulsionados pela força do agronegócio ou pela industrialização local, desenvolveram uma base de consumidores apta a demandar produtos de grifes internacionais e marcas de luxo brasileiras.

Historicamente, o varejo de luxo no Brasil dependia da centralização urbana para justificar o alto custo operacional e a logística complexa. Contudo, a análise indica que a escala atingida por essas novas praças permite que o custo de ocupação seja diluído, tornando o investimento em shoppings de luxo no interior uma estratégia de longo prazo mais resiliente e menos dependente de flutuações sazonais.

Mecanismos de atração e competitividade

O otimismo do setor também encontra suporte em mudanças estruturais nas condições de operação. O possível avanço de acordos comerciais, como a redução de tarifas de importação entre Mercosul e União Europeia, desenha um cenário onde marcas estrangeiras encontram menos fricção para acessar o consumidor brasileiro. Isso mitiga a percepção histórica de que o luxo só é acessível fora do país.

Além disso, o papel do operador de shopping evoluiu de um simples locador de espaços para um gestor de ecossistemas. A estratégia de fidelização baseada em CRM avançado e atendimento personalizado é o motor que mantém o cliente dentro do ecossistema nacional. Ao oferecer uma experiência de compra comparável aos padrões globais, as operadoras tentam capturar a demanda que antes era drenada pelo turismo de compras internacional.

Implicações para o ecossistema de varejo

Para os stakeholders, o movimento de expansão regional impõe o desafio de equilibrar a exclusividade com a capilaridade. A chegada de marcas globais em cidades menores não apenas eleva o padrão de consumo local, mas também estimula o surgimento de marcas brasileiras que buscam ocupar espaços de nicho. O resultado é um mercado mais competitivo, onde a concorrência não se dá apenas pelo preço, mas pela qualidade do serviço e pela relevância da marca.

Para o ecossistema de shoppings, a diversificação geográfica atua como um hedge natural contra crises que possam afetar centros urbanos específicos. A descentralização, portanto, não é apenas uma estratégia de crescimento, mas uma medida de robustez operacional para os grandes players do setor imobiliário comercial.

O futuro da expansão premium

A sustentabilidade desse modelo de expansão permanece como uma pergunta central para os próximos anos. Resta saber se o poder de compra dessas novas praças terá fôlego para sustentar o crescimento das bandeiras de luxo no longo prazo, ou se o movimento será limitado a um grupo seleto de cidades com perfil econômico excepcional.

O mercado observará atentamente a capacidade dos operadores de manter a exclusividade em escala. A transição de um modelo concentrado para uma rede capilarizada exigirá um nível de sofisticação logística e de marketing que, até pouco tempo atrás, era impensável no cenário brasileiro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times