O preço da habitação livre na Espanha registrou uma alta expressiva de 13,1% em 2025, atingindo o patamar de 2.230 euros por metro quadrado. Segundo o boletim anual do Observatorio de Vivienda y Suelo (OVS), vinculado ao Ministério de Vivienda e Agenda Urbana, este é o quinto ano consecutivo de valorização, situando os preços 7% acima do pico histórico observado durante a bolha imobiliária de 2007.

Este cenário de aquecimento é acompanhado por um volume recorde de transações, com 752.098 compraventas realizadas no período, o maior número desde o auge do ciclo anterior. A dinâmica do mercado indica que, apesar dos custos elevados, a demanda por financiamento permanece resiliente, com a concessão de 501.073 hipotecas, um salto de 17,8% em relação ao ano anterior.

Descompasso entre oferta e demanda

A análise dos dados sugere uma tensão estrutural entre a produção de novas unidades e o ritmo de absorção pelo mercado. Embora o número de viviendas iniciadas tenha alcançado 137.330 unidades — o nível mais alto dos últimos 16 anos —, a entrega de imóveis terminados recuou 9%, totalizando 91.896 unidades. Essa discrepância entre o início de obras e a conclusão efetiva aponta para gargalos operacionais no setor da construção.

Vale notar que, historicamente, a Espanha lida com ciclos de oferta que demoram a responder aos estímulos de preço. O aumento das hipotecas, que agora representam 66,6% das operações de compra, indica que o acesso ao crédito tem sido o principal motor dessa escalada, mesmo em um ambiente de preços que desafiam a capacidade de pagamento das famílias.

Impacto no esforço financeiro

O acesso à moradia tornou-se um desafio quantificável para o cidadão espanhol. Segundo o OVS, a aquisição de um imóvel exige hoje o equivalente a 7,98 anos de renda bruta disponível por família. O esforço financeiro necessário para a compra atingiu 35,5% da renda anual, um indicador que as autoridades costumam monitorar como limite de sustentabilidade para o endividamento doméstico.

Esse cenário cria uma pressão política crescente por soluções habitacionais. O governo tem respondido com um aumento no orçamento para habitação protegida, destinando 4.035 milhões de euros em licitações desde 2019, um valor significativamente superior ao registrado na década anterior. No entanto, a eficácia dessas medidas em conter a inflação imobiliária ainda é incerta diante da pressão macroeconômica.

Tensões regulatórias e mercado

A valorização contínua coloca o mercado espanhol sob a lupa de reguladores e investidores. A alta de preços não é apenas um fenômeno de capitalização, mas um reflexo da escassez crônica de oferta em centros urbanos. A leitura aqui é que, sem um aumento consistente na entrega de novas unidades, a pressão sobre os preços tende a persistir, independentemente das políticas de subsídio adotadas.

Para o ecossistema de negócios, a pergunta central é se o mercado está diante de um novo ciclo de superaquecimento ou de uma correção estrutural baseada em fundamentos demográficos. A resiliência do volume de hipotecas sugere que, por enquanto, a liquidez segue disponível, mas a margem para novas valorizações sem uma expansão da renda real parece cada vez mais estreita.

Perspectivas para o setor

O que permanece em aberto é a capacidade do setor de construção em acelerar a entrega de projetos iniciados. A queda na conclusão de obras é um sinal de alerta que merece atenção, pois limita a oferta imediata e perpetua a pressão inflacionária.

O monitoramento dos próximos trimestres será crucial para entender se o patamar de 2025 representa um teto de mercado ou apenas uma etapa em um ciclo de longo prazo. A estabilidade do sistema financeiro dependerá da capacidade das famílias em absorver esses custos sem que o endividamento atinja níveis de risco sistêmico.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España