Quatro décadas atrás, o escritório de Samuel Kruchin era uma raridade em um mercado que via edifícios históricos apenas como entraves burocráticos. Em um cenário onde a demolição parecia a única via para a modernização, ele insistia em uma premissa quase herética para a época: a de que o valor imobiliário não residia apenas na área bruta, mas na camada histórica que cada parede carregava. Hoje, o cenário mudou. A escassez de terrenos em São Paulo, aliada a uma maior segurança jurídica, fez com que o setor privado, antes avesso ao tombamento, passasse a enxergar esses ativos não como um problema, mas como um diferencial de mercado.
O novo paradigma do patrimônio
Kruchin, que iniciou sua jornada no Condephaat nos anos 1980, observa que essa mudança de mentalidade reflete uma maturidade urbana. Antigamente, o foco da preservação em São Paulo era estritamente colonial, ignorando a riqueza da arquitetura eclética que define o centro da capital. Ao atuar em projetos icônicos como o Edifício Sampaio Moreira, ele ajudou a construir a base teórica que faltava ao mercado. O restauro, em sua visão, nunca foi sobre congelar o tempo, mas sobre criar um diálogo entre o legado e as exigências da vida contemporânea, algo que ele define como uma poética da intervenção urbana.
A mecânica do valor agregado
O segredo dessa virada reside na distinção técnica entre retrofit e restauro. Enquanto o retrofit foca na atualização operacional, o restauro respeita o valor simbólico como norteador da obra. Em projetos como a sede da Dataprev ou a Praça Pamplona, Kruchin demonstra que é possível integrar tecnologia e história sem perder a essência do edifício original. Esse modelo de negócio, que une volumes contemporâneos a fachadas preservadas, tem se mostrado capaz de alavancar o valor imobiliário, atraindo investidores que buscam exclusividade em um mercado saturado.
O luxo da memória
Para o arquiteto, a tendência é clara: o patrimônio histórico está se consolidando como um nicho de altíssimo padrão. A complexidade técnica envolvida na preservação, que antes afastava o capital, agora funciona como uma barreira de entrada que valoriza o produto final. Ao tratar edifícios tombados como artigos de luxo, o mercado encontra uma forma de viabilizar obras que, de outra forma, seriam financeiramente proibitivas, garantindo a sobrevivência física da história da cidade.
O futuro entre o passado e o presente
O desafio, contudo, permanece na capacidade de sustentar essa convergência de imaginários sem descaracterizar o que se pretende salvar. A pergunta que fica para os próximos anos não é se o mercado continuará a investir em restauro, mas como a cidade lidará com a tensão entre a pressão imobiliária e a preservação da identidade. Até onde o valor de mercado será capaz de proteger o que é, por natureza, um bem público? O tempo, como sempre, será o juiz final dessas intervenções.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Metro Quadrado





