O inovabra, o hub de inovação do Bradesco, está prestes a passar por uma transformação significativa que vai além da mudança física de sua sede. A partir de 2027, o hub deixará seu endereço na Avenida Angélica, em São Paulo, para se realocar em um novo espaço, mas o cerne da mudança reside na redefinição de seu modelo de atuação. A liderança do inovabra decidiu inovar na forma como o hub opera, abandonando a cobrança tradicional por espaço físico e adotando uma estrutura baseada em serviços, onde o hub atuará como um orquestrador de negócios. Essa nova abordagem visa conectar corporações, startups e parceiros de maneira mais dinâmica e focada em resultados.

“Somos um hub de inovação, então resolvemos inovar, fazer algo diferente”, afirmou Paulo Emediato, head de Growth e Comunicação do inovabra, em entrevista. A proposta é mobilizar o ecossistema por meio de um modelo mais alinhado aos desafios contemporâneos de empresas e startups. Em vez de precificar o espaço físico, o inovabra passará a precificar serviços, utilizando um sistema de créditos e trilhas de serviços. Essa mudança, segundo Emediato, altera a dinâmica do jogo, pois o foco se desloca do metro quadrado para a entrega de valor tangível. Embora o formato tradicional de hubs seja considerado essencial para a qualificação dos ecossistemas, o inovabra entende que este novo caminho oferece uma proposta de valor distinta, mais conectada às necessidades atuais do mercado. Empresas que desejarem utilizar o novo espaço físico ainda poderão fazê-lo, mas sem a obrigatoriedade de pagar por um assento fixo.

Do espaço físico à orquestração de valor

O novo modelo operacional do inovabra se estrutura em tiers com diferentes valores, mas a lógica central é a de uma carteira de créditos. Cada empresa associada terá a liberdade de alocar esses créditos em diversas iniciativas, como eventos, programas de eficiência, desafios de inovação e provas de conceito com startups. Um exemplo prático dessa nova orientação já está em andamento com o PRIA (Programa de Residência em Inteligência Artificial), uma iniciativa desenvolvida em parceria com o CEIA e com o apoio de gigantes como Google e Nvidia, que visa capacitar startups no uso aplicado de IA. O calendário anual do hub será composto por programas voltados tanto para corporações quanto para startups, além de arenas de negócio focadas em eficiência e tendências de mercado.

A principal distinção deste novo modelo, segundo os executivos, reside no acompanhamento e na coordenação dos projetos. Diferentemente de simplesmente conectar corporações e startups em um mesmo ambiente, o inovabra se propõe a estar ativamente ao lado das empresas e startups ao longo de todo o ciclo de seus projetos. “Na prática, o inovabra se propõe a coordenar as jornadas de serviços de inovação de ponta a ponta, sempre priorizando potencializar a entrega de valor para os membros”, explicou Chen Wei Chi, head de Negócios e Soluções do inovabra. Essa abordagem responde a uma demanda crescente dentro das próprias corporações, que muitas vezes enfrentam dificuldades em justificar orçamentos de inovação quando o valor percebido se limita ao espaço físico, e não aos serviços agregados. A nova lógica do inovabra visa clarificar o valor do hub para além de sua sede física, auxiliando as empresas a defenderem seus investimentos em inovação.

Mensuração de resultados e alcance ampliado

Para o inovabra, a reorientação do modelo de negócios permitirá uma mensuração de retorno mais robusta, que transcende a métrica de ocupação do espaço físico. Essa é uma questão crucial que tem pesado sobre as áreas de inovação nos últimos anos: a demonstração de um impacto claro e mensurável. “A gente pode ser parceiro de mensuração, porque vou ter um delta de transformação mais claro, com uma visão de início, meio e fim das iniciativas”, complementou Paulo Emediato. Renata Petrovic, head do inovabra, resume o movimento como uma transição “da conexão para a orquestração, da experimentação para o resultado”. A orquestração da inovação, articulando todo o ecossistema em torno de desafios específicos, torna-se essencial para ampliar o alcance e o impacto das entregas. Com este modelo, o hub também pretende atrair empresas que ainda não possuem uma área de inovação formalizada ou cujas equipes foram reconfiguradas para focar em desenvolvimento de IA. Nesses casos, o inovabra poderá atender diretamente as áreas de negócio das empresas e as unidades internas do Bradesco, que já se beneficiaram de mais de 70 provas de conceito do hub em 2025, incluindo projetos como BIA Review e Identidade Digital.

Adaptação à realidade remota e expansão regional

Ao longo de seus oito anos de atuação na Avenida Angélica, o inovabra abrigou 270 startups residentes ativas e cerca de 40 corporações. Desde 2018, mais de 600 startups passaram pelo espaço físico, 3,1 mil foram conectadas via parceiros e mais de mil negócios foram gerados. No primeiro semestre de 2026, foram incorporadas 44 startups e seis corporações, e os eventos do hub reuniram cerca de 20 mil pessoas no ano anterior. Os executivos ressaltam que esses números indicam a vitalidade da comunidade, mas a forma de interação com o espaço mudou: aproximadamente 70% das startups residentes operam de forma total ou majoritariamente remota. “Muitas empresas não estão lá, mas elas sempre estão lá quando tem chamado, quando tem programa, quando tem uma iniciativa específica. Ou seja, eu não preciso estar preso nesse modelo”, observou Paulo Emediato. A nova sede, cujo endereço será divulgado em breve, será acompanhada pelo lançamento de uma plataforma digital que centralizará a operação, permitindo que as empresas aloquem seus créditos, acompanhem o calendário de programas e tenham visibilidade das iniciativas. A operação em soft opening está prevista para o primeiro trimestre de 2027, com migração inicial para membros ativos sob condições especiais.

Além da reformulação do modelo físico-digital, o inovabra planeja expandir sua atuação para ecossistemas fora da capital paulista. A percepção é que startups de regiões ainda enfrentam barreiras para acessar oportunidades em São Paulo, e o hub busca atuar como um agente facilitador. A estratégia inclui parcerias de negócio com comunidades como o Instituto Caldeira (Porto Alegre), a ACATE (Santa Catarina) e o Porto Digital (Recife), reconhecidas por sua maturidade e foco na geração de negócios. Entre as ideias em estudo estão a conexão de startups regionais com investidores paulistas e a realização de desafios e arenas de negócio integradas. Um exemplo concreto dessa expansão é a parceria anunciada com o Instituto Caldeira durante a Semana Caldeira, que inclui a Missão China 2027, levando executivos a Hong Kong e Shenzhen para agendas com empresas como BYD, Huawei e Tencent. “Ao conectar nossos desafios estratégicos a um ecossistema da densidade do Caldeira e a centros globais como Shenzhen e Hong Kong, encurtamos a distância entre tendência, oportunidade e decisão”, concluiu Paulo Emediato.

Com reportagem de Brazil Valley

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