A inovação tornou-se um conceito mitificado, cercado por fórmulas de gestão e manuais de como ensiná-la. Mas, na prática, ela permanece fundamentalmente incompreendida. Essa é a tese central de Eugene Fitzgerald, professor do Departamento de Ciência e Engenharia de Materiais do MIT, em seu novo livro, “The Invisible Engine: Why Innovation Evades Control” (“O Motor Invisível: Por que a Inovação Evita o Controle”, em tradução livre).

Baseado em uma década de trabalho liderando programas de pesquisa internacionais, Fitzgerald argumenta que a visão linear de uma grande ideia que magicamente se transforma em um produto de sucesso é uma falácia. Em entrevista ao MIT News, ele defende que a inovação real é um processo não-linear, descentralizado e que resiste ao controle. A leitura é que, para governos, empresas e universidades, entender essa dinâmica é mais crucial do que buscar uma receita que não existe.

O motor (invisível) da surpresa

O “motor invisível” a que o título se refere é a inteligência coletiva e descentralizada de diferentes atores — pessoas e empresas — que, ao interagirem, geram “surpresa” no mercado. O conceito, emprestado do economista do início do século XX Frank Knight, descreve o papel do empreendedor: assumir a incerteza. A recompensa por trazer ao mundo algo sem saber exatamente o que vai acontecer é o lucro que advém da surpresa de que aquilo é desejado e pode ser feito.

Fitzgerald argumenta que a maior parte dos investimentos em pesquisa ignora essa dinâmica. Ele divide os aportes em três categorias. A primeira é a “ciência altruísta”, típica do ambiente acadêmico, cujo principal produto são pessoas mais instruídas, mas com um retorno econômico direto “basicamente zero”. A segunda é a “pesquisa estratégica”, organizada em torno de uma meta para um cliente específico — como o governo desenvolvendo um novo caça —, onde a variável econômica é removida da equação. Nenhuma das duas é, de fato, o motor do crescimento econômico.

Da Lei de Moore à gestão da incerteza

O terceiro tipo, que Fitzgerald chama de “inovação fundamental”, é o processo completo. E sua própria carreira é o principal estudo de caso. Nos anos 90, nos Bell Labs da AT&T, ele co-inventou o silício tensionado (strained silicon), um avanço físico importante, mas sem aplicação comercial imediata. A orientação que recebeu na época foi: “vá falar com o pessoal de marketing”. A tecnologia só encontraria seu lugar no mundo anos mais tarde, de forma inesperada, quando a indústria de semicondutores precisou dela para estender a Lei de Moore.

Esse caminho tortuoso — do laboratório da AT&T para o MIT, passando pela fundação de uma startup e, finalmente, a adoção pela indústria após uma disputa de patentes com a Intel — não foi uma série de acasos. Para Fitzgerald, esse foi o processo de inovação. Ele envolve a gestão constante da incerteza em três variáveis simultâneas: a tecnologia (o que é fisicamente possível), a implementação (como pode ser construído e entregue) e o mercado (quem irá adotar e por quê). A inovação não é a ideia inicial; é o trabalho de convergir esses três elementos no mundo real.

Para formuladores de políticas públicas, a lição é entender como a economia da inovação funciona e parar de atrapalhar. Para estudantes e pesquisadores, é um chamado para se tornarem profissionais em formato de “T”: com profundidade técnica em uma área, mas com conhecimento funcional amplo em muitas outras. A proposta de Fitzgerald é que as universidades se tornem catalisadoras de “terceiros lugares” — espaços que reúnem academia, indústria e capital justamente para navegar essa incerteza de longo prazo, que é o verdadeiro berço do valor.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT News