O setor de bens de consumo na Espanha enfrenta uma estagnação preocupante em sua capacidade de renovação. Segundo o Radar da Inovação, elaborado pela Worldpanel by Kantar em parceria com a Promarca, o mercado registrou apenas 75 lançamentos relevantes em 2025, mantendo o patamar do ano anterior. Esse número representa uma queda acumulada de 52% em relação a 2010, atingindo o nível mais baixo dos últimos 15 anos.

A leitura central do estudo é que o ecossistema de consumo perdeu dinamismo, criando um ciclo de inércia que afeta o crescimento de categorias inteiras. Embora a inovação continue sendo um motor de valor — categorias que inovam crescem 44% mais que as demais, segundo o levantamento —, a complexidade de colocar novos produtos nas gôndolas tornou-se o principal gargalo para fabricantes e marcas.

O abismo entre o lançamento e a prateleira

O grande obstáculo identificado pelo estudo é a escassa presença das novidades nos pontos de venda. A distribuição média das inovações atinge apenas 27,9% do mercado espanhol, o que significa que, mesmo quando um produto é desenvolvido, o consumidor final raramente tem acesso a ele. Essa barreira logística e comercial impede que a inovação cumpra seu papel de gerar valor.

Joan Riera, da Worldpanel by Kantar, aponta que as inovações bem-sucedidas chegam a estar presentes em 47% do mercado, enquanto aquelas que não conseguem tração ficam presas em cerca de 20% dos pontos. Esse descompasso sugere que o varejo atua como um filtro rigoroso, muitas vezes conservador, que limita a experimentação de novos produtos antes mesmo de o consumidor poder avaliar a proposta.

Dinâmicas de mercado e o papel das marcas

Ainda segundo o Radar da Inovação, as marcas de fabricante continuam sendo as principais responsáveis pelos lançamentos, concentrando 88% das novidades, enquanto as marcas próprias de distribuidores respondem por 12%. Entre os fabricantes, a divisão é relativamente equilibrada: 55% das inovações vêm de multinacionais e 45% de empresas locais, sinalizando que o tecido empresarial nacional segue relevante na criação.

Contudo, a estratégia de varejistas varia drasticamente. Enquanto redes como o Carrefour mantêm uma postura de incorporação de novos produtos, o estudo destaca que cadeias como a Mercadona acumulam três anos sem integrar nenhuma das inovações de fabricantes analisadas. Esse comportamento reflete uma divergência estratégica sobre o valor da novidade no portfólio, com redes regionais assumindo, em muitos casos, o protagonismo na introdução de novos itens.

Tensões na cadeia de valor

O impacto dessa redução vai além das empresas, afetando a economia como um todo. Fernando Fernández, presidente da Promarca, alerta que a queda de 150 para 75 lançamentos anuais em uma década é um sintoma de um mercado que se tornou excessivamente cauteloso. A falta de diálogo entre a indústria e a distribuição é apontada como a raiz do problema, em que a necessidade de eficiência de curto prazo sufoca a inovação de longo prazo.

A exigência por uma maior colaboração entre varejistas e fabricantes é clara no estudo. Sem uma abertura real nos lineares, a inovação corre o risco de se tornar um esforço isolado, incapaz de mudar hábitos de consumo ou criar novas ocasiões de uso — justamente onde reside o verdadeiro valor econômico de um lançamento bem-sucedido.

Desafios para a próxima década

O futuro do setor depende de superar a barreira da visibilidade. Com o prazer e a conveniência liderando os motivos de inovação, o desafio é garantir que essas propostas alcancem o público antes que a estagnação se torne estrutural. Resta saber se o varejo mudará sua postura para incentivar novos produtos ou se a indústria buscará canais alternativos de distribuição.

Acompanhar a evolução das taxas de penetração será essencial para entender se o mercado conseguirá reverter essa tendência de queda ou se a inovação continuará sendo uma exceção em um varejo cada vez mais focado em eficiência operacional e marcas próprias. Na Espanha, o setor de bens de consumo vive um momento de redefinição sobre o que realmente significa inovar em um mercado saturado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España