A agência da ONU para o comércio e o desenvolvimento (UNCTAD) alertou nesta terça-feira que, embora a reabertura do Estreito de Ormuz traga alívio imediato aos preços globais de energia, as economias vulneráveis enfrentam um ciclo de inflação prolongada. O impacto, segundo a instituição, será sentido de forma desigual, com sistemas alimentares e logísticos demorando muito mais a se estabilizar do que os mercados financeiros de commodities.
O relatório da UNCTAD destaca que, após mais de 100 dias de bloqueios desencadeados pelo conflito entre EUA, Israel e Irã, as cadeias de suprimentos globais sofreram um deslocamento estrutural. Embora o barril de petróleo Brent tenha retornado ao patamar de US$ 73, a normalização dos preços de energia não se traduz automaticamente em alívio para os custos de produção agrícola e logística local.
A fragilidade das cadeias logísticas
O Estreito de Ormuz não é apenas uma rota de petróleo; é um nó vital na logística marítima global. A interrupção prolongada forçou mudanças de rotas e elevou os prêmios de seguro, custos que as empresas repassaram ao longo da cadeia. A UNCTAD observa que a reabertura física da via navegável não elimina instantaneamente o passivo financeiro acumulado durante o período de paralisia.
O mecanismo de transmissão dessa crise para os países importadores é complexo. Quando o custo do transporte marítimo e dos fertilizantes sobe, o efeito cascata atinge diretamente a segurança alimentar. Países que dependem de importações de cereais e combustíveis, como Cabo Verde e Iêmen, encontram-se em uma posição onde a estabilização da oferta global de petróleo é insuficiente para conter a inflação doméstica, dada a desorganização prévia das redes de distribuição.
O dilema das 61 economias vulneráveis
O relatório identifica 61 nações que compõem o grupo de maior risco diante de choques externos. A análise sugere que, para essas economias, o custo de oportunidade de manter estoques de segurança durante o conflito drenou reservas de divisas estrangeiras. A inflação de alimentos não é apenas um problema de mercado, mas um risco social direto, com a ONU alertando que aumentos de 5% nos preços podem elevar a incidência de emaciação infantil.
O cenário exige uma distinção clara entre a volatilidade do mercado de capitais e a realidade da economia real. Enquanto os traders de energia comemoram o retorno dos preços aos níveis pré-conflito, o consumidor final em mercados emergentes ainda lida com a inércia dos custos de frete e a escassez de fertilizantes, insumos que tiveram suas janelas de entrega perdidas durante os meses de tensão geopolítica.
Tensões diplomáticas e incertezas futuras
O acordo provisório entre os EUA e o Irã, firmado em 17 de junho, é visto por analistas como um mecanismo de contenção, mas não de resolução. A incerteza sobre a continuidade das negociações, exemplificada pela dificuldade de realizar encontros diplomáticos em Doha, mantém o prêmio de risco geopolítico elevado. Esse estado de alerta permanente desencoraja investimentos de longo prazo em infraestrutura logística na região.
Para o ecossistema brasileiro e global, a lição central é a exposição das cadeias de suprimentos à concentração geográfica. A dependência de um único estreito para a circulação de uma parcela significativa dos suprimentos globais de gás e petróleo demonstra que a eficiência do modelo 'just-in-time' pode se tornar um passivo catastrófico em cenários de conflito prolongado.
Perspectivas para a estabilização
O que permanece incerto é a velocidade com que os fretes marítimos retornarão aos níveis competitivos de outrora. A UNCTAD enfatiza que a recuperação exigirá apoio internacional coordenado, mas a capacidade dos países desenvolvidos em prover esse suporte é incerta diante de suas próprias pressões inflacionárias internas.
O monitoramento dos próximos meses deve focar menos na oscilação diária do preço do barril e mais nos índices de inflação de alimentos e na disponibilidade de insumos agrícolas nos países listados como vulneráveis. A estabilidade política no Oriente Médio continua a ser o maior determinante para a redução do custo de vida global.
A questão que persiste é se a comunidade internacional conseguirá criar mecanismos de proteção que não dependam exclusivamente da normalidade do fluxo comercial em zonas de alta tensão geopolítica. O alívio momentâneo nos mercados de energia pode esconder uma crise humanitária e econômica que ainda está longe de seu desfecho final.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





